16/12/2009

POE - Post Occupancy Evaluation

Hoje assisti a algumas das apresentações dos trabalhos desenvolvidos pelos alunos para a disciplina de POE, integrada no MSc Sustainable Building: Performance and Design (antes chamado Energy Efficient and Sustainable Building). Tendo também feito este MSc no ano passado, passei inevitavelmente um semestre a aprender e a colocar em prática os conceitos ligados ao Post Occupancy Evaluation, ou como é mais habitualmente designado, POE.

Esta é uma disciplina cuja importância tem crescido de dia para dia no contexto do Reino Unido, assim como noutros países como a Austrália e os EUA. Entende-se o porquê deste facto, já que um estudo de POE fornece um verdadeiro retrato de um dado edifício e seu comportamento a nível energético, ambiental e mesmo no que aos padrões de ocupação diz respeito.

Lembro-me que no ano passado eu e o meu grupo de trabalho desenvolvemos um destes estudos para um edifício em Bristol, uma espécie de lar de idosos com dezenas de apartamentos individuais. A recolha de dados foi bastante minuciosa e envolveu não só as contas de electricidade e gás, mas também o registo da temperatura, humidade relativa, níveis de luz natural, níveis de som, etc., durante um determinado período de tempo. Desta forma foi possível construir uma ideia do desempenho geral do edifício.
Como parte da secção de Energia foi, a título de exemplo, efectuado um registo meticuloso de todos os equipamentos eléctricos e iluminação (quantidade e tipo de lâmpadas), sua potência e frequência de utilização. O objectivo foi definir o total de energia (neste caso electricidade) consumida no edifício e decompor este valor pelos vários sectores. Esta é uma boa forma de detectar consumo excessivo de energia devido a, por exemplo, uso inadequado de equipamento, o que pode como consequência conduzir a possíveis reduções de consumo energético.

A adicionar ao acima mencionado, foi também efectuado um estudo exaustivo sobre todos os factores de carácter ambiental, que incluíram aspectos como a distância a paragens de autocarro, existência ou não de local para guardar bicicletas, estratégias de desenho passivo no edifício, materiais de construção e muitos mais.

Como elemento final deste processo foi feito um estudo sobre a ocupação do edifício. Este geralmente envolve entrevistas com algumas perguntas abertas, mas sobretudo com perguntas fechadas relacionadas com o conforto térmico e hábitos quotidianos como por exemplo quantas vezes por dia o aquecimento é ligado, ou mesmo até com que frequência se abrem as janelas.

Ao fim de meses e meses de recolha de dados e análise de desenhos técnicos, a quantidade de informação que se obtém é verdadeiramente impressionante. Foi através da interligação da mesma que aferimos com rigor que energia estava a ser consumida, a que se devia esse consumo, as emissões de CO2 do edifício e qual a contribuição dos ocupantes para estes resultados. O remate óbvio para todo este processo foi o desenvolvimento de estratégias e recomendações, desenvolvidas exclusivamente para o edifício em questão, no que diz respeito à redução de consumo de energia e emissões de CO2.

Enfim, este é um processo de facto bastante moroso mas bastante gratificante, sobretudo para os ocupantes dos edifícios que geralmente acabam por conseguir poupar energia e, como consequência, umas quantas libras por ano (sim, porque geralmente as reduções de emissões de CO2 não são ainda a prioridade, mas sim as reduções de custos…).

Só para finalizar este longo post, gostaria de enfatizar que este processo está a ser largamente implementado no Reino Unido, de tal forma que aos poucos se vai criando uma base de dados com os resultados finais de cada edifício, onde é possível comparar o desempenho dos mesmos.
Que eu saiba, ainda não existe nenhum POE feito a um edifício de terra. No entanto, seria interessante levar a cabo este estudo para edifícios de terra contemporâneos, isto para que se pudesse comparar o seu desempenho com os restantes.
Fica a sugestão…

02/12/2009

Research Journal

A partir de agora esta página será complementada com uma outra onde se escreve somente sobre o decorrer da pesquisa que estou a levar a cabo como parte do programa de doutoramento.
A língua dominante deste novo blog, intitulado Research Journal, será o inglês e a periodicidade da actualização do conteúdo dependerá obviamente do andamento da investigação propriamente dita.

Visitas, comentários e feedback são sempre bem-vindos.

28/11/2009

Cidades de terra - Yazd, Irão

Edifícios típicos da zona antiga de Yazd. Fonte da imagem: http://www.spiritsofadventure.com/journal/iran/yadz/yazd-sky-line-from-jemah-mo.jpg

Imagens aéreas de zonas distintas da cidade de Yazd, reveladoras das mudanças de abordagem no que ao desenho da malha urbana diz respeito. Fonte: Google maps

Nos últimos três meses tenho dedicado algum tempo a investigar a utilização do material terra em contexto urbano. Não é novidade que tal fenómeno aconteça, já que desde tempos remotos, cidades inteiras foram erguidas graças ao material terra, isto muito antes da existência de outros materiais como o betão ou o aço, agora considerados quase imprescindíveis, ser conhecida.
Não deixa no entanto de ser surpreendente a quantidade imensa de “cidades de terra”.
Uma das primeiras afirmações que li logo que iniciei o estudo deste material começa agora a ganhar sentido e forma: “Mais de metade da população mundial vive em casas de terra”.
À medida que a minha literature review progride, a minha mente, antes formatada para os materiais “ocidentais”, começa a questionar qual será a metade do mundo que sairá vencedora nesta batalha dos materiais de construção mais apropriados…

Felizmente, tenho a sorte de partilhar o meu espaço de trabalho com outros investigadores na área da arquitectura. Umas quantas secretárias atrás da minha, encontra-se um colega do Irão que percorre já a fase final do seu doutoramento. Este consiste basicamente na investigação da eficiência dos sistemas de arrefecimento passivo utilizados nos edifícios tradicionais na cidade de Yazd, no Irão. Se bem que a sua pesquisa não diga respeito concretamente à construção em terra, acaba por abordar esta temática uma vez que que estes edifícios são sobretudo compostos por blocos de terra secos ao sol.
O meu colega, de nome Ahmadreza Foruzanmehr, explicou-me que a malha orgânica desta cidade, assim como os próprios edifícios e seus elementos característicos foram originalmente concebidos com a função de proporcionar bem-estar aos ocupantes. Para tal, sempre se recorreu à sabedoria que provou ser eficaz durante séculos. Ora veja-se a simplicidade dos factos:

- A distribuição dos espaços baseia-se numa ocupação que varia consoante a altura do ano, do dia e da temperatura exterior, isto é, os ocupantes das habitações migram dentro das mesmas de forma a buscar o conforto térmico. É, por exemplo, comum pernoitar no terraço e passar as horas mais quentes do dia na cave.
- A existência de um pátio, em função do qual todo o espaço é gerado, geralmente onde os elementos água e vegetação marcam presença, garante a produção de um micro-clima que vai também ser fundamental para o conforto nos restantes espaços das habitações.
- Quanto à escolha do material, a terra, era principalmente nos recursos e saberes locais que se confiava para erguer as paredes dos edifícios.

É visível que também esta cidade se está a deixar influenciar pelo “desenvolvimento”, enquanto pessoas e edifícios contribuem para a mudança de paradigma construtivo e social e uma nova malha urbana é assim definida. Uma sucessão de eventos e tecnologias disponíveis têm contribuído para este facto que se assemelha cada vez mais a uma bola de neve que parece não parar de crescer.

- A destruição quase total dos edifícios de terra da cidade de Bam após o terramoto de 2003 afectou a confiança da população de tal forma que é agora corrente afirmar-se que não confia na capacidade estrutural do material terra e como tal, não o desejam para as suas casas;
- Outros materiais utilizados noutras partes do mundo, agora igualmente incorporados na indústria da construção no interior das fronteiras da cidade de Yazd, parecem garantir segurança e estabilidade e para além disso permitem que se aumente a densidade de construção;
- A utilização destes outros materiais, como o betão e aço, associados à introdução de meios de arrefecimento mecanizado alteram a configuração da casa tradicional, já que eliminam a necessidade de espaços de ocupação sazonal e de elementos de arrefecimento passivo, etc.;
- O preço elevado da terra, aliado aos factores acima mencionados, elimina ainda a necessidade de existência de um pátio, antes elemento fundamental e definidor da arquitectura tradicional desta área;
- As ruas, anteriormente estreitas e orgânicas, entre outras razões para se manterem em sombra e por isso frescas na maior parte do dia, são agora largas e ortogonais, como que rasgadas no tecido urbano;

A minha questão prende-se portanto com o espírito de lugar e identidade local. É complicado opinar sobre este processo de mudança sem viver o espaço como habitante e, sobretudo, sem saber se esta mudança contribui de facto para a melhoria da qualidade de vida dos habitantes. No entanto, e julgo que isto se aplica a muitas outras zonas urbanas, não posso deixar de pensar se existem ou não necessidades artificiais a serem criadas por entidades locais com alguma influência e que estão, de alguma forma, a contribuir para uma mudança de paradigma que pode correr o risco de trazer consequências não antecipadas e irreversíveis.

Não sou de todo contra a evolução das sociedades e não me oponho sobretudo à melhoria da qualidade de vida das pessoas, julgo no entanto, que no que ao ambiente construído diz respeito, que acaba por influenciar muito mais do que simplesmente a escolha do material a incorporar as paredes, antes de se tomar qualquer decisão que pode provar vir a ser irreversível, existem muitas questões que necessitam imperativamente de ser consideradas.
Estaremos a esquecer esta fase de reflexão, elemento fundamental do planeamento urbano, em detrimento de um conceito adulterado de desenvolvimento?

21/11/2009

workshop - fardos de palha






O entusiasmo pelos métodos de construção mais sustentáveis tem vindo a crescer visivelmente. Para além da terra também outros materiais têm angariado fiéis seguidores, tanto aqui no Reino Unido como em tantas outras partes do mundo.
Este é o caso da palha que, quando aglomerada em fardos, pode também ser utilizada para erguer paredes transformando-se num bloco de grandes dimensões com excelentes qualidades térmicas e acústicas.
Passei o dia de sexta-feira num workshop de construção em fardos de palha que antecedeu uma conferência com o mesmo tema. Já tinha experimentado construir com este material numa ocasião anterior, há coisa de 4 ou 5 anos, e a sensação de que estava a lidar com um material de grandes potencialidades voltou a estar bem presente na minha mente.

A falta de massa térmica no material pode ser facilmente compensada com um reboco de terra de espessura considerável, o que proporciona ao ambiente anterior conforto quer em termos de temperatura, quer em termos de níveis de humidade relativa. Em edifícios de fardos de palha erguidos em zonas excepcionalmente frias, já foram inclusive registadas temperaturas internas na casa dos 20ºC quando no exterior se liam -20ºC, isto sem recurso a qualquer aquecimento.
Obviamente que para tal acontecer todos os elementos do projecto têm de trabalhar em conjunto. Não basta ter paredes de fardos de palha para que uma casa seja imediatamente confortável. No caso que referi anteriormente, a fachada Sul era completamente composta por vidro triplo e o conceito de construção da casa baseava-se no
passivhaus standard, ou seja, estes níveis de conforto seriam provavelmente igualmente atingíveis com recurso a outro tipo de materiais de construção.

Tal como na construção em terra, caso nos preocupemos com a energia incorporada, será importante considerar o nível de mecanização envolvida no processo. Este facto influenciará decisões como por exemplo rebocar as paredes à mão ou com terra projectada.

Este material, a par de outros, entre os quais se encontra a terra, será com certeza uma boa opção para quem deseja construir de forma mais sustentável e em harmonia com a Natureza.

08/11/2009

Volunteer Building in Thailand

Na hora de escolher um destino de férias, há quem se decida por fazer algo diferente da habitual viagem a Paris, Londres ou a uma praia a lembrar o paraíso. Em vez disso juntam-se a grupos de pessoas que disponibilizam o seu tempo para ajudar a construir habitações, escolas, etc. em regime de voluntariado.
O exemplo que vos trago diz respeito à construção de uma biblioteca em blocos de terra na Tailândia. São 18 dias de "mãos na massa" e uma excelente experiência a todos os níveis.
Receio no entanto que a divulgação venha um pouco tarde, já que o projecto arranca dia 11 deste mês... Fica de qualquer forma a referência para futuros projectos que esta mesma instituição venha a realizar.
Para mais detalhes sobre a Instituição Dragonfly e o projecto clique AQUI.

07/11/2009

Taipa isolada pelo exterior

Ontem assisti a uma conferência sobre o tema “Construção em Taipa” apresentada por um dos especialistas na matéria aqui do Reino Unido de nome Rowland Keable. A mesma realizou-se após um workshop, no qual infelizmente não tive oportunidade de participar.

Uma vez que este evento de dia completo teve lugar no campus da Oxford Brookes University, o público era constituído na sua maioria por estudantes que desconheciam o conceito da Taipa, pelo que o conteúdo da conferência teve sobretudo a intenção de abordar os conceitos básicos da construção em taipa. Vimos excelentes exemplos de trabalhos desenvolvidos por Rowland Keable, inclusive algumas imagens fresquinhas de um edifício de que vos falei aqui num post anterior e que se encontra já bem perto da sua finalização.

Fiquei especialmente interessada num dos exemplos apresentados, uma sala de aula de uma escola em Battle, Sussex onde a taipa é utilizada como parede interior, sendo revestida pelo exterior com isolamento e ripado de madeira. Uma vez que esta foi exactamente a solução que utilizei como exemplo tanto para o meu ultimo trabalho de design do mestrado como para a tese final (modelo desenvolvido em IES-VE para determinar o desempenho térmico de um edificio de taipa isolado pelo exterior) fiquei muito satisfeita por saber que esta já a ser aplicada no Reino Unido, e, segundo os utilizadores do edifício, com excelentes resultados. Ao que parece, a sala de aula dispensa praticamente o uso de aquecimento durante o Inverno e durante o verão é o único espaço totalmente confortável em todo o campus da escola.

Se a isto adicionarmos o facto de o revestimento exterior proteger a taipa propriamente dita das agressões do clima inglês (chuva, vento, etc.) então a combinação dos elementos aplicados aproxima-se da perfeição.

Será este o caminho a seguir para a utilização da terra em países com o contexto climático semelhante ao do Reino Unido? Fica a questão.

As imagens abaixo apresentadas são da autoria de Rowland Keable (©2007 Rowland Keable) e encontram-se disponiveis no website Ram Cast CIC


01/11/2009

Tijolos de terra no Chile

É já habitual pedir aos amigos que viajam pelo mundo que me enviem fotografias reveladoras do carácter arquitectónico dos locais por onde passam. A última pessoa a atender a este pedido foi o Filipe, que numa fantástica viagem pela América do Sul, neste caso enquanto passava pelo Chile, encontrou tijolos de adobe a secar ao sol e resolveu registar o momento para me enviar. Obrigada Filipe!!

Aproveito para partilhar algumas das imagens que, como já referi, são de sua autoria.

21/10/2009

AFRICAN ARCHITECTURE TODAY - papers disponíveis para download


A conferência AFRICAN ARCHITECTURE TODAY realizou-se em Junho do ano de 2007 na Kwame Nkrumah University of Science and Technology em Kumasi, Gana. Como geralmente acontece em ocasiões semelhantes, os artigos submetidos estão disponíveis no site oficial da conferência - AQUI

Vale definitivamente a pena dar uma olhadela.

16/10/2009

Terra 2012

Enquanto navegava pela web descobri que a conferência Terra 2012, the 11th International Conference on the Conservation of Earthen Architecture se vai realizar em Lima, no Peru.
Se bem se lembram, a última - Terra 2008 - realizou-se em Bamako, no Mali, e teve a duração de 5 dias (+visitas) tendo contado com a participação de cerca de 450 pessoas.
Julgo que não ainda conhecidos muitos pormenores. Estarei atenta às notícias relacionadas com este evento.

15/10/2009

So far so good...

Nas últimas semanas o tempo tem sido curto para tantas tarefas… O início desta nova fase da minha vida obriga-me de certa forma a dominar a mestria do esticar das horas. Devo dizer, no entanto, que sem muito sucesso.
Decidida a temática de investigação à qual vou dedicar os meus próximos 3 a 4 anos é necessário passar pela fase inicial da literature review, onde basicamente identificarei e analisarei o máximo de informação disponível (possível) relevante para o meu tema de investigação (earth as a low impact building material in urban areas of developing countries).

De certa forma posso dizer que já quando estava a fazer o mesmo para a tese do MSc fiquei muito surpreendida com a quantidade de pessoas espalhadas pelo mundo inteiro que se dedicam à investigação do material terra nas suas mais diversas facetas. Mesmo assim, agora que o período a dedicar para a leitura de publicações é mais extenso é que começo a ver a verdadeira dimensão da comunidade de académicos e profissionais ligados à terra.
A meu ver, já não faz qualquer sentido afirmar que pouco se sabe ou faz neste campo. Provavelmente existe sim é uma falta de divulgação dos outcomes ou de trabalho a ser desenvolvido, o que não quer dizer que ele não seja já uma realidade.
Entre os artigos interessantes que me têm passado pelas mãos nas passadas semanas encontram-se por exemplo:

- Thermal behaviour of adobe constructions de M.Luisa Parra-Saldivar e William Batty;
- Attitudes towards construction in the developing world: a case study from Zambia de B. Baice, M. Osmani, K. Hadjri e C. Chifunda
- Mass Housing through earth construction in Nigeria de Kadiri Kabir O.
- Environmental assessment of rammed earth construction systems de Graham Treloar, Geridwen Owen e Roger Fay
- Recourse to earth for low-cost housing in Nigeria de A. O. Olotuah

Existem também muitas teses de PhD que se debruçaram sobre as temáticas da construção em terra, algumas das quais se encontram disponíveis em formato digital através do website da British Library.
Deixo também uns exemplos em baixo:

- The architectural transformation of housing patterns in the city of Sana'a, Yemen de Al-Sabahi, Hatim Mohammed.
- The thermal performance of vernacular and contemporary houses in Sana'a, Yemen de Ayssa, Abdullah Zeid.
- Twentieth-century earthen buildings of Sardiania : archaeometry and conservation de Enrico F.

Obviamente que aliado a isto se encontra ainda todo o trabalho de carácter mais prático que foi ou se encontra a ser desenvolvido, mas isso seria assunto para outro post.

Espero voltar com updates nos próximos dias.

28/09/2009

Earthbag Building in Oxford (Part2)



Aproveitámos a visita da minha irmã e o bom tempo para dar "a obra" por terminada. Com o banco finalizado já é possível ocupar a parte Sul do jardim sem ter de carregar cadeiras.
Um orçamento de 50 libras e cerca de 15 horas de trabalho foram suficientes para materializar esta nossa primeira experiência com a técnica dos sacos de terra. Claro que podíamos ter comprado um daqueles banquinhos de jardim do B&Q, mas não seria a mesma coisa...
O solo dentro dos sacos ainda se encontra em fase de secagem, no entanto já usamos o banco sem qualquer problema. O problema da chuva quase constante durante o Outono e Inverno neste país tem de ser considerado, como tal, ainda estamos a decidir se o vamos cobrir nesta altura ou se simplesmente o deixamos ao sabor dos elementos para observar o que acontece. Embora me pareça que o saco protege eficazmente das águas da chuva, não gostaria de ver o banco a "desaparecer". Veremos.
Optámos também por deixá-lo assim, sem qualquer acabamento. Os sacos revelam a verdadeira materialidade do banco e isso agrada-nos.
Foi uma experiência interessante, mesmo que bastante modesta. Imagino já uma próxima...

20/09/2009

Earthbag building in Oxford (Part 1)




Por várias vezes demonstrei interesse pela técnica da construção com sacos de terra por acreditar ser de facto uma forma de erguer rápida e eficazmente uma qualquer construção.
Este interesse aliado a um imenso monte de solo que tinha no jardim, a aguardar que algum uso lhe fosse atribuído, foram razões suficientes para experimentar por mim a técnica da construção em sacos de terra. Foi assim que começou a nascer um humilde banco de jardim, estrategicamente posicionado para receber o Sol de Inverno (não que ele se mostre muito por estas bandas, mas...). Posso dizer que foi acima de tudo uma experiência divertidíssima!
O post de hoje revela imagens do início do processo e será complementado num próximo, já com o banco terminado e também com uma descrição mais completa do mesmo.

08/09/2009

Centro de Estudos do Deserto

Tomei conhecimento do Centro de Estudos do Deserto enquanto investigava sobre construção em terra em Angola. Esta associação, de sede em Angola, tem como objectivo a realização de diversas acções com especial ênfase nas zonas áridas de Angola no sentido de promover a protecção dos ecossistemas e o desenvolvimento sustentável adequado às características locais.
Uma destas acções foi organizada recentemente (27 de Julho a 1 de Agosto). A combinação de um Workshop e Seminário com o tema ‘A Arquitectura de Terra, uma aposta para o Desenvolvimento de Angola’ reuniu diversos especialistas habituados a lidar com questões ambientais. Marcaram presença arquitectos, engenheiros, autoridades tradicionais e entidades de várias instituições com o objectivo de discutir as estratégias mais eficazes para a divulgação da construção com terra, de forma a integrar este material de construção nos esforços do Governo orientados para a construção de um milhão de fogos habitacionais até 2012.
O documento referente ao evento encontra-se disponível para download na página de internet do Centro de Estudos do Deserto (CE.DO). Bem sei que será tarde demais para uma possível inscrição, de qualquer forma parece-me interessante dar uma vista de olhos pelas razões que levaram à realização deste workshop e seminário. Deixo em baixo um excerto do texto:

“Ultimamente, preocupações económicas e ambientais elegeram a terra como uma alternativa à construção corrente em betão armado, económica e ambientalmente mais sustentável. Uma relação estreita entre os conhecimentos adquiridos ao longo de uma experiência milenar do uso deste material e o recurso às novas tecnologias para a sua aplicação, têm demonstrado uma abordagem conscienciosa e sábia sobre estas matérias. Várias experiências têm sido preconizadas por diversos países, demonstrando a sua viabilidade, não havendo ainda conclusões e certezas de aplicação universal, uma vez que se atravessa uma fase de grande experimentação. A taipa e o adobe são as principais técnicas utilizadas, destacando-se no meio de dezenas de técnicas que se diferenciam de acordo com especificidades locais e regionais.”
Acrescento, para terminar, que esta acção procurou criar uma ligação com as comunidades locais promovendo a construção com terra como uma forma de melhorar a qualidade de vida das aldeias e periferias urbanas."

Fiquei muito curiosa em relação a possíveis resultados deste seminário. Uma vez que a informação disponível na página oficial do CE.DO se limita à utilizada para promover o evento, irei contactá-los em breve de forma a poder acompanhar eventuais desenvolvimentos.
As excelentes condições e potencialidades para a utilização do material terra em Angola têm sido amplamente divulgadas e apoiadas como forma de contribuir activamente para um futuro sustentável para o país. Este será com toda a certeza um assunto ao qual voltarei em breve.

06/09/2009

O próximo passo...

Já lá vão dois anos desde que comecei a estudar "Energy Efficient and Sustainable Building" no Reino Unido. Dentro de apenas duas ou três semanas há-de chegar ao fim esta fase que me levou a conhecer uma imensidão de novos conceitos e me ensinou a olhar a arquitectura de uma forma bastante diferente, mais completa, diria. Foi também durante este período que desenvolvi um especial interesse pela arquitectura de terra, o que me permitiu olhar a mesma segundo as temáticas abordadas durante o MSc - Climatic Design, Building Physics, Post-Occupancy Evaluation, Sustainable Design in Context, entre outras.

Ainda durante este período tive a fantástica oportunidade de trabalhar num gabinete de arquitectura aqui em Oxford onde, para além de aprender muito sobre o processo da concepção de projecto desde a sua fase inicial até ao acompanhamento da obra, pude comparar e compreender as diferenças e semelhanças (muito poucas...) entre a arquitectura portuguesa e a inglesa.

A passagem por conferências como a Mediterra2009, o contacto com profissionais ligados à construção em terra e a presença em workshops deram-me a conhecer diferentes formas de olhar e trabalhar a terra nos dias que correm.

Diria que, em suma, foram dois com saldo bastante positivo. Bom, e agora... Embora há uns meses tenha considerado voltar a Portugal após a finalização do MSc, as perspectivas alteraram-se. A sede de conhecimento acabou por definir a continuação do meu percurso ligado não só à vida académica e investigação mas também à construção em terra. No final deste mês iniciarei um programa de doutoramento, aqui em Oxford, que procurará abordar o papel do material terra na contemporaneidade de países em desenvolvimento que possuem gravado nas suas tradições construtivas a existência deste material.

Muito caminho há ainda para trilhar, sobretudo no que diz respeito à aplicação prática da arquitectura de terra, no entanto, diria que a vontade para o fazer vai de alguma forma trazer tranquilidade aos próximos 3 a 4 anos. Depois disso... Logo se verá!
Como de resto é já habitual, utilizarei este blog para partilhar este meu percurso de descoberta e aprendizagem. Espero contar com a vossa visita!
Obrigada.

30/08/2009

Quinta do Lago Silencioso

Este projecto de agro-turismo localizado em Alzejur, a Quinta do Lago Silencioso, foi concebido à luz dos princípios de uma filosofia ambiental que influenciou todos os momentos e elementos da construção. A título de exemplo, as paredes foram erguidas em tijolos de adobe, não se utilizaram vernizes nem tintas plásticas, as tintas utilizadas foram as minerais, o chão encerado e as madeiras oleadas. Destaco também o material utilizado para os lintéis, a madeira.

A página de internet deste local permite-nos espreitar o momento da edificação, mostrando pormenores das paredes e cobertura. Segundo informação disponibilizada no website, o material terra foi escolhido devido à sua capacidade de gerar conforto interno.

Deixo aqui algumas fotografias e convido a uma visita ao website para que possam obter informação adicional.






23/08/2009

Próximas conferências

Os próximos meses são ricos em termos de conferências. As mesmas não dizem respeito particularmente à construção em terra, abordam sim de uma forma geral a temática da construção sustentável e (esta agrada-me particularmente) da rápida urbanização nos países em desenvovimento, nomeadamente em África.
Deixo então uma lista de algumas das conferências.


25 - 29 Setembro 2009: África do Sul. African Perspectives 2009 - Página oficial
Organizada pela universidade de Pretoria em associação com African Perspectives
Esta conferência tem como tema principal a cidade Africana.
Segundo o programa, entre muitos trabalhos a serem apresentados encontram-se alguns de origem portuguesa.

Dia 27/09:
9:00 - Viana (EscolaSuperior Gallaecia): African City: towards a new paradigm– a chameleonic urbanism for hybrid cities;

14:30 - Matos ( Universidade Tecnica de Lisboa): Planned and unplanned towns in former Portuguese colonies in Sub-Saharan Africa;

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3 - 4 Março 2009: Penang, Malásia. Sustainable Architecture & Urban Design 2010 - Página oficial

Organizado por School Of Housing, Building & Planning, Universiti Sains Malaysia e e NURI (Nusantara Urban Regional Institution)

O programa inclui uma vista pela antiga e mais recente área da cidade de George Town.

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28 - 30 Abril 2010: Madrid. International Regional Conference on Sustainable Construction. Revitalisation and Rehabilitation of Districts - Página oficial

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19-27 Agosto 2010: Mexico City. Living in the Urban Modernity - Página oficial

Segundo a página oficial, a conferência irá abordar os seguintes sub-temas:
1- Modern Living,
2 - Civic and Social Infrastructure,
3 - The Modern City,
4 - Technology for a Modern Habitat,
5 - The University City.

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20/08/2009

Mercado de S. Luís, Alentejo

Andando ali pelos lados de S. Luís aproveitei para visitar o mercado de S. Luís, projecto de 1998 concebido pelos arquitectos Alexandre Bastos e Teresa Beirão.
É um edifício que se destaca dos que o rodeiam, quer pelo seu design contemporâneo, que pelas paredes de terra expostas em determinadas áreas.
Enquanto fotografava e tirava algumas notas reparei que um habitante local explicava orgulhosamente, a alguém que por ali passava, em que consistia aquele tipo de construção .

Pessoalmente, a sensação geral perante o Mercado é de agrado. No entanto, parece-me importante referir que o edifício apresenta mais degradação do que seria de esperar para tão curto período de vida. Enquanto sentia a textura das paredes exteriores especulava em relação à origem de tal desgaste... Incompatibilidade de alguns materiais utilizados talvez? Falta de manutenção?...
Aqui deixo algumas imagens.



16/08/2009

A morte lenta das paredes de terra

Nem sempre é possível identificar imediatamente um edifício de terra. Por vezes, o conhecimento dos antecedentes históricos de determinada zonas permite-nos adivinhar a composição de paredes ocultadas por reboco e tinta. Noutros casos, onde as paredes esventradas revelam o testemunho da ausência de manutenção e/ou abandono, o material e técnicas de construção utilizadas podem ser facilmente reconhecidas. Se tal situação poderá em muito contribuir para identificar as técnicas de construção em terra utilizadas em diferentes áreas do país, infelizmente é também reveladora de descuido e desinteresse pelo património arquitectónico nacional, sobretudo no que diz respeito à arquitectura de carácter vernáculo.

O aparente desapego das tradições construtivas, que de resto em muito definem a essência do nosso povo e sua cultura, não se restringe ao uso do material terra. Tornou-se igualmente comum encontrar país fora ruínas de antigos edifícios erguidos maioritariamente em pedra.
Em qualquer dos casos, é uma visão profundamente triste assistir a esta morte lenta de paredes que tantas histórias teriam ainda para contar.

Perdoem-me portanto se as imagens que vos trago hoje são portadoras dessa tristeza. A verdade é que, infelizmente, constituem exemplos de uma realidade cada vez mais frequente em Portugal... Todas as fotografias foram captadas durante as duas semanas que passaram, aquando das minhas férias por Portugal.


Ruína perto de Fornalhas Velhas, Alentejo



Edifício abandonado perto perto de Odemira, Alentejo



Parede de taipa em ruína perto de S. Teotónio, Alentejo


Edifício abandonado em S. Tiago do Cacém, Alentejo



Ruína no Entroncamento, Ribatejo



A beleza incomparável da alvenaria de pedra no norte de Portugal. Neste caso também edifícios deixados ao abandono

04/08/2009

Em viagem rumo a Portugal







Neste Verão foi a vez de deixar de lado o avião e percorrer de carro as estradas desde Oxford até ao solarengo Portugal. Estas viagens conferem a vantagem de se poder parar de quando em vez e contemplar a paisagem, o que permite a descoberta de surpresas onde menos se espera.

Fizemos uma de muitas pausas numa área de serviço perto de Salamanca, em Espanha. Tal não foi a minha surpresa ao sair do carro quando me deparei com um edifício onde as paredes exteriores são compostas por uma mistura de blocos de terra e pedra. Já tentei encontrar alguma informação sobre o projecto mas em vão. De qualquer forma, ficam algumas imagens do edifício.

Só em tom de nota final, o site the roof above my head, embora ainda com muito para completar, já se encontra online. Espero actualizar e complementar os seus conteúdos com o passar do tempo e à medida que os meus estudos na área da construção em terra vão também decorrendo.

29/07/2009

Rammed Earth Solar Homes Inc.

A partilha do processo de construção de edifícios de terra é cada vez mais comum pelas páginas da web. O que vos mostro hoje está a ser erguido pela companhia Rammed Earth Solar Homes Inc.

A galeria de imagens "conta" a história do crescimento de um projecto de linhas contemporâneas e bastante interessante.
Deixo-vos uma selecção de imagens que não dispensam, obviamente, a visita à página da empresa.



23/07/2009

Associação Centro da Terra - nova página

Não pude deixar de reparar que a Associação Centro da Terra mostra-se agora ao mundo de cara lavada, ou seja, com um novo site.
Se ainda não fizeram uma visita aconselho a exploração deste espaço que se propõe entre outras coisas, a divulgar eventos e publicações relacionadas com o material de construção terra.
Agradou-me particularmente a lista de Património Arquitectónico em Terra no Mundo, assim como a lista de alguns artigos publicados por profissionais ligados a esta área.
As imagens que se vão renovando enquanto exploramos a página são muito inspiradoras e reflectem com sucesso a beleza do material, misturando exemplos contemporâneos com outros onde a força dos anos sobre as paredes de terra é já bem visível.

Parabéns pela nova página!

22/07/2009

Rammed Earth - 28th, 29th July


14/07/2009

Earth building thermal model - case study

Imagem produzida no ambiente IES-VE
Finalmente dei início à fase da simulação de um edifício de taipa. Os resultados desta serão incluídos na tese de MSc e permitirão fazer a comparação do material terra com materiais de construção mais convencionais em termos de performance térmica e outros. Neste caso, estou a utilizar o software IES - Virtual Environment, uma ferramenta surpreendente que pode auxiliar em muito a compreensão da complexidade não só do comportamento térmico de um edifício, mas também o consumo de energia, emissões de CO2, simulação de iluminação natural e artificial, fluxo de ar, etc., etc....
Infelizmente, o que tem de rico em termos de recursos, tem também em complexidade de desenvolvimento (é a minha humilde opinião)... Até se ter o modelo up and running é necessário passar por uma série de etapas onde se inclui o desenho dos espaços, definição de materiais, perfis de utilização, clima entre outros. No entanto, uma vez pronto, é só clicar nas várias opções para aceder a uma série de relatórios onde se pode ver toda a informação relativa ao edifício.
Julgo que em duas semanas conseguirei ter esta fase pronta!

09/07/2009

Construção em Adobe: E-learning, Austrália



É um facto que a construção em terra é cada vez mais falada, e neste caso, mais ensinada. Veja-se este curso a distância que se pode fazer a partir de uma instituição Australiana.
Pretende-se com 100 horas (aproximadamente 5 a 7 meses) preparar o aluno para lidar confiantemente com as temáticas da construção em terra, neste caso enfatizando a técnica do adobe.
Segundo a página da ACS Distance Education, o conteúdo das 10 aulas é o seguinte:

"1. Scope of Mud Brick - Covers history and types of earth building and construction. Also involves analysis of your soil with respect to suitability for mud bricks.
2. How to make a mud brick - You will get to make a mud brick mould; test your soil, classify it, and check it for ability to withstand compression. You will also be expected to assess other soil types and their suitability for mud bricks.
3. Planning and Site Works - Selecting a home site, designing a house to maximise energy efficiency. Introduction to building biology (ie. healthy buildings).
4. Legal Considerations - Permits, specifications etc
5. Foundations - Strip foundations, slabs, earth floors.
6. Laying Bricks - Step by step procedure, strengthening/reinforcing walls, load bearing compared with non load bearing walls, rendering finished surfaces.
7. Doors, Windows, and Roofs - Roofing methods, fixing doors & windows, general fixing, joinery, plugs etc.
8. Finishes - Alternative wall and floor finishes.
9. Services - Electricity, gas, water etc. Designing & costing a small building (eg. store or workshop).
10. Other types of Earth Building - Wattle & daub, rammed earth, cob."

Acredito que possa ser interessante, no entanto, questiono-me sobre a verdadeira utilidade do curso sem a experiência "hands-on"...
Fica a informação.

04/07/2009

Construção em sacos de terra




Há uns dias soube pelo blog Terra Palha, que também já Portugal se aliou ao movimento da construção com sacos de terra, técnica também apelidada de super adobe. É quase impossível ficar indiferente a mais esta forma de utilizar a terra como meio para proporcionar abrigo, quer pela simplicidade de execução, quer pelas potencialidades a nível da concepção de espaço. Sim, tem limitações, como aliás todas terão, no entanto, acredito que possui também muito para oferecer. Convido a darem uma espreitadela aos vídeos da construção de super adobe em Portugal - Disponíveis AQUI.

Existem hoje bastantes formas de aceder a informação relativa a esta técnica de construção, quer seja através de publicações, quer através das imensas páginas da web dedicadas exclusivamente a esta temática. O blog earthbag building é uma daquelas páginas preciosas que visito diariamente e que aconselho a quem se interessa pela construção com sacos de terra. Os posts são sempre muito interessantes e os exemplos que partilham com os leitores, fantásticos. Os mesmos autores dessa página criaram outras onde, por exemplo, disponibilizam plantas de casas capazes de inspirar qualquer um a avançar no seu próprio projecto (ver AQUI). Eu própria estou bem tentada...
De fora não poderia deixar a página do Cal-earth, uma instituição que imediatamente associamos ao arquitecto Nader Khalili e que, para além de outras coisas, muito se tem dedicado à expansão desta prática.
E porque os recursos são de facto imensos, não esqueçamos os milhares de vídeos disponíveis no youtube onde podemos ter uma ideia do que se anda a fazer pelo mundo com sacos de terra! Estes são apenas dois exemplos:



30/06/2009

Jardins com taipa


Fonte: http://www.culturalconversations.com/2009/06/new-art-by-jane-philbrick-rammed-earth-sculpture-garden.html


Recebi um email do Michael Thompson com um link para um site onde se mostra um jardim na Suécia, pontuado com esculturas de taipa (fotos acima). Por curiosidade, procurei mais uns quantos exemplos espalhados pelo mundo. Deixo-vos só uma amostra de alguns trabalhos de taipa em jardins que encontrei na web.


fonte: http://www.rammedearth.info/rammed-earth-pictures.htm



29/06/2009


O silêncio das últimas semanas é revelador da falta de tempo e disponibilidade para postar aqui no roof. Só falta mais um par de meses para terminar a tese e depois... Bom, depois espero regressar em força!!
Porque tenho passado muito tempo de volta das páginas de livros e a gastar a vista em frente ao ecrã do computador, resolvi partilhar mais um livro que se encontra disponível online.
Boas leituras!!

17/06/2009

Eco-Architecture 2010

3ª Conferência Internacional relativa ao tema da Harmonia entre Arquitectura e Natureza


Mais informação em www.wessex.ac.uk/ecoarch2010




13/06/2009

BTC - Bloco de Terra Comprimida

No fim de semana que passou visitei uma obra, cujo projecto é da autoria do arquitecto José Alegria, onde os BTC foram utilizados para erguer as paredes da maioria dos edifícios que farão parte de um luxuoso complexo hoteleiro algarvio.
Foi na verdade a primeira vez que tive oportunidade de olhar de perto a prensa que produz os tijolos. Confesso que fiquei espantada quando os trabalhadores me revelaram a proeza da produção de cerca de 3000 tijolos num dia, enquanto competiam uns com os outros pelo lugar de equipa capaz de ter mais tijolos prontos. A média dos dias normais é, no entanto, de cerca de 1500 tijolos, um número bastante razoável.
Curioso foi também constatar, através do testemunho dos trabalhadores, que as paredes de BTC demoram mais tempo a erguer, quando comparadas com o tijolo normal. Leva-me a pensar que mesmo que se poupe no material propriamente dito (devido à utilização da terra local), a morosidade acabará por igualar o custo final ao de uma construção mais convencional. Seria interessante fazer uma comparação de custos para ter a certeza, mas é provável que tal aconteça.
Este parente moderno do tijolo de adobe representa mais uma das muitas formas de utilização da terra com enormes potencialidades e possibilidades de utilização no contexto arquitectónico português.
Já agora, deixo aqui um agradecimento especial para o R. P., um conterrâneo dos tempos de juventude que, amavelmente, disponibilizou o seu tempo (e paciência) para me conduzir na visita pela obra.




10/06/2009

Viagem de fim de semana ao Alentejo

Fotografia aérea de zona do Alentejo perto de Vale Bejinha - google maps
Mesmo a correr, os encontros com algumas personalidades que têm tratado a construção em terra por "tu" no contexto Português, são sempre inspiradores.

Valeu a pena vencer o medo de voar para encontrar o belo Alentejo nem que tenha sido por um curto, aliás curtíssimo, espaço de tempo. Por força das circunstâncias, uma vez que o field work do MSc assim o exige, e também porque me a minha paixão por esta região de Portugal tem aumentado, foi por lá que me deixei perder no último fim de semana.

Cada vez que percorro aquelas estradas reparo nas imensas ruínas deixadas ao abandono, casas que agora habitam uma terra de ninguém. Não posso deixar de lamentar a solidão das paredes de taipa que aos poucos voltam para a terra que há muito as fez nascer. Mesmo sendo este "retornar ao útero materno" um acto dono de alguma poética, muito melhor seria testemunhar estes montes alentejanos a albergar a vida para a qual foram em tempos erguidos.
Uma pessoa bem experienciada nestas coisas da construção em terra e de habitar o Alentejo falava-me, neste solarengo domingo, das vantagens de viver nesta região, na forma como o tempo parece alterar-se e no bem que esse e outros factores acrescentaram à sua vida. Foi também essa pessoa a lembrar-me que "se toda a gente soubesse do bom vinho não existiria bom vinho" (julgo que foi qualquer coisa assim), o que que me levou obviamente a concordorar que não será de facto muito positivo ansiar por uma enchente em direcção à quase intocada zona do Alentejo, no entanto, parece-me imperativo agir no sentido de resgatar o belo e precioso património arquitectónico espalhado por estas bandas.

Hoje fico-me por esta curta reflexão, sonhando com o dia em que eu própria farei também parte desta equipa de resgaste e me deixarei fascinar pela magia da passagem do tempo Alentejano.

01/06/2009

Earthenhand Mali Workshop | 9 - 25/01/2010



Não poderia deixar de partilhar a informação relativa a este workshop, a realizar-se no Mali no início do próximo ano. Não estivesse já quase lacrada nos meus planos de curto prazo uma viagem por Angola e eu seria com toda a certeza uma das corajosas pessoas a partir nesta aventura pelo Mali!
Os professores Scott Howard, Atime Saye e Paulina Wojciechowska vão ministrar um longo e completíssimo curso das técnicas de construção em terra num país de beleza imensa: Mali.
O programa inclui também uma abordagem à cultura local e a visita pelas redondezas, prometendo assim ser um momento inesquecível.
O custo talvez seja um obstáculo já que, como se pode aliás imaginar, viajar para o Mali não é exactamente o mesmo que para um qualquer país da Europa. De qualquer forma, existe sempre a alternativa de combinar uma visita turística com este workshop... Porque não?
Para mais informação consulte o website do workshop - http://www.earthenhand.com/Mali.html

30/05/2009

Recontruir Gaza com TERRA

São por vezes as estranhas circunstâncias da vida que nos obrigam a pensar “outside the box” e a ver para além do simples hábito do imediato.
Os cenários de conflito são geralmente causadores de grande dor e sofrimento, a tragédia de Gaza não foge, infelizmente, a esta regra.
Surpreendentemente são também as maiores tragédias que mostram o sinal da força e vontade humana.
Li uma reportagem interessante neste website, que me deu a conhecer a reacção de alguns dos habitantes de Gaza à proibição da entrada de materiais de construção, como os que as pessoas assumem geralmente como garantidos sempre que pensam em construir uma casa.
Traduzida em números, a destruição apresenta-se aterradora: 5000 casas e 20000 edifícios foram destruídos em 3 semanas. Uma quantidade com certeza assustadora para quem pensa em voltar a erguer das cinzas a alma da cidade. O artigo refere a doação de fundos (4, 5 biliões de dólares) para este fim, sublinhando no entanto que Israel não permite a entrada de materiais de construção, como por exemplo o cimento, para que a reconstrução possa ser uma realidade.
Qual a solução para que as famílias desalojadas possam voltar a ter um tecto, para garantir uma escola para as crianças ou providenciar hospitais e locais de culto para os habitantes?
A resposta foi encontrada no material de construção terra e, a julgar pelo artigo, com bons resultados.
Recomendo vivamente a leitura integral desta história de sobrevivência escrita por Nidal al-Mughrabi, da qual deixo aqui um pequeno excerto.

“...
Compared to a cement home, the mud homes Shaar has designed and taught others to build are nonetheless the most practical and immediate solution. Nidal Eid (35) has seven children and has been renting a home in the Rafah region since his house was bulldozed by the Israeli army four years ago. Larger than Shaar's and still in its nascent form, Eid's home will take another two weeks to complete, he estimates, and will cost roughly 4,000 dollars. "It's going to be fantastic," Eid said, adding mud mortar and new bricks to the waist-high wall he has already completed. "We make about 1,000 bricks every three days." The work, he said, was shared between six people. "I couldn't wait any longer for the siege to end. I have a family and we need a house, so I'm building this. Everything is difficult in Gaza, but we have to find ways to get by." A tour through Jihad el-Shaar's home shows all sorts of creative touches to the simple structure. Inlaid shelves are custom-sized to hold gas lanterns, dishes, ornamental vases, books...an earth-brick bed eliminates the need for an additional bed frame. The 35cm thick walls keep the house surprisingly cool, and the wooden windows propped open by poles allow the breeze to pass through.
...”

Hassan Fathy - Natural Energy and Vernacular Architecture

Tenho aprendido muito com os Mestres nos últimos tempos. Pessoas como Hassan Fathy trilharam caminhos para que as gerações futuras continuassem a lutar pelas mesmas causas nobres a que dedicaram as suas vidas. É talvez graças ao seu trabalho árduo que a mentalidade global tem vindo a conhecer mudanças importantes no que diz respeito, por exemplo, à Arquitectura de Terra e benefícios para o mundo da sua utilização.
Para quem deseja dar uma espreitadela a um dos seus livros (Natural Energy and Vernacular Architecture) pode fazê-lo através DESTE LINK, que contém o texto integral da publicação. Basta clicar no capítulo respectivo para imediatamente ser direccionado para o seu conteúdo.
Bem sei que não é o mesmo que sentir a textura do papel das páginas de um livro que se pode carregar debaixo do braço, mas, e mesmo através de um ecrã de computador, é muito enriquecedor e interessante.

Já agora, recomendo uma visita ao website da United Nations University, que disponibiliza a publicação referida online.

27/05/2009

AFRICOAE Seeks Volunteer Project Manager/ Creative Fundraiser

Fonte: http://www.archiafrika.org/en/node/1030

Uma excelente oportunidade para quem deseja envolver-se na construção em terra num dos locais do mundo onde a sua herança histórica fala bem alto!

Fonte da informação e imagem: http://www.archiafrika.org/en/node/1030


"From 2010-2015, we will be developing a model artist village in Ghana and Uganda for replication in other parts of Africa. For the locals, it will mean a resolution to the age-old problem for artists, painters, sculptors, dancers, and others who require low-cost and expanse of space in which to work; and for persons in the arts from around the world, it will be a contact point for artist-in-residence for community-based arts projects. Some 50 and 500-1000 acres have been speculated in rural parts of Ghana, as are in Uganda, Cameroon and Botswana.
Project, thus, seeks an experienced project manager, or creative fundraiser to creatively source finance and coordinate the construction of an artist village for the low- and moderate-income artists in one of the African countries. The project is a design-andbuild Earth Architecture Challenge, in which creative thinkers and technical specialists in the visual arts, architecture and engineering from sub-Sahara Africa and other parts of the world will work together for a period of time to design-and-build dwellings out of earth and other materials from the environment, which will be attended by many visitors.The challenge is open to traditional and modern construction methods, and experimental approaches and sustainable solutions such as mud bricks, terracrete, laterized concrete, compressed earth, rammed earth, hydraform and other best practices out there that may work in this region of the world.
If interested in facilitating the project or wish to suggest a resource person, please e-mail to
africoae@gmail.com. "


Additional information on the project will be upon request.
PROJECT: DESIGN-AND-BUILD AN EARTH HOME CHALLENGEWEB SITE: http://www.focusonthearts.org, http://afropoets.tripod.com/eta

18/05/2009

Taipa em Norfolk, Reino Unido




Michael Thompson, autor e construtor deste edifício de taipa localizado em Norfolk, mostra-nos que a técnica da taipa pode passar fácil e rapidamente da teoria para a prática. Depois de ter ouvido falar pela primeira vez da taipa em Janeiro de 2008, o autor arregaçou as mangas e deitou mãos à obra para erguer o seu próprio edifício com paredes de terra. Abraçou esta tarefa monumental de corpo e alma durante cerca de 6 meses e agora, já só com detalhes mínimos para terminar, é possível observar que todo o trabalho valeu a pena!
Uma vez que se trata de um abrigo de jardim, questões como isolamento não constituíram um problema.
Deixei-lhe a sugestão e desafio de construir uma casa de taipa numa próxima vez. Veremos o que o futuro contará.

13/05/2009

Rammed Earth Workshop | Norfolk 9-10/05/2009





A sorte esteve do meu lado no fim-de-semana que passou. As nuvens escuras mantiveram-se afastadas de Norfolk enquanto eu e os restantes participantes do workshop erguiamos uma parede de taipa.
Tivemos como background uma construção de taipa totalmente desenhada e construída por Michael Thompson, que após a conclusão desta decidiu energicamente partilhar o seu conhecimento com quem estivesse interessado em seguir-lhe os passos.
Gostei imenso do curso, não só pelo seu carácter educativo, mas também porque o ambiente de grupo que se viveu foi muito interessante e agradável. Correu tudo bem e a nossa parede ficou quase, quase perfeita!!

Visitámos também rapidamente a casa de Kate Edwards, entusiasta da construção em cob. Infelizmente não se encontrava em casa, o que não impediu que dessemos uma vista de olhos pelas construções de cob presentes no seu enorme jardim, tal como este forno de pizzas.


Em breve o Michael vai ministrar um outro workshop, desta vez dedicado às coberturas ajardinadas. Tenho a certeza que vai ser bestial!!
Dedicarei um futuro post à descrição do seu shed.

11/05/2009

Utilização de massa térmica no contexto climático do Reino Unido

Iniciei o percurso da terra como uma espécie de purista. Uma parede de terra era uma parede de terra e qualquer elemento a ela acrescentada, como isolamento ou revestimento, não lhe serviria boa função. Assim pensava até há pouco tempo. Reconheço agora que o facto de ter vivido em território lusitano tantos anos me alimentou de alguma forma esta ideia. É verdade que o clima é propício à utilização da terra enquanto material de construção na sua forma “pura”, isto é, parede exposta ao exterior, no entanto, é também verdade que diferentes situações exigem diferentes soluções. Há que ultrapassar ideias pré-concebidas, especialmente quando pregamos aos sete ventos que a terra é suficientemente flexível para se adaptar a qualquer parte do mundo, independentemente do seu contexto climático, geográfico, social ou cultural. O último trabalho do MSc proporcionou-me a fantástica oportunidade de conceber e testar o comportamento das paredes externas de taipa num edifício localizado em Oxford, Reino Unido. Este país é provavelmente dos mais rígidos em termos de regulamentação aplicada ao sector construtivo, é também dos que mais tem investido na adaptação dos regulamentos à exigência da conservação energética no edificado. Estes factores, aliados a um clima onde os altos níveis de precipitação e as baixas temperaturas representam uma constante na maior parte do ano, foram decisivos na opção da inclusão de isolamento aplicado pelo exterior e revestimento de madeira.


Para a construção do brief deste exercício académico, tive como objectivos principais os seguintes:


a) Desenho solar passivo (sem recurso a sistemas auxiliares de arrefecimento ou aquecimento);

b)Ligeira inclinação da fachada principal com o objectivo de permitir a entrada de mais luz natural;

c) Fachada principal orientada a Sul, contemplando uma área considerável de vidro de forma a permitir o acesso de ganhos solares durante o Inverno. Um sistema de sombreamento móvel, controlado pelos ocupantes, garantirá o controlo da entrada dos ganhos solares no Verão;

d) Fachada Norte com vãos de dimensões reduzidas, banindo assim as excessivas perdas de calor;

e) Sistema de ventilação nocturna garante o controlo das temperaturas internas no Verão, evitando o sobreaquecimento;

f) Utilização de materiais naturais de baixa energia incorporada (sobretudo terra e madeira) de preferência de origem local, no sentido de evitar o transporte a partir de longas distâncias;

g) Utilização de cobertura ajardinada, não só como forma de contribuir para a estratégia geral de bom comportamento térmico da casa mas também para o desenvolvimento da biodiversidade da zona na qual o edifício se insere;

h) Inclusão de espaço de trabalho no piso superior, providenciando desta forma a escolha de trabalhar a partir de casa.

Estudo da luz natural no interior da casa

O processo de desenho foi acompanhado pela ferramenta de modelação térmica IES, o que veiodeterminar a alteração de muitas das escolhas de desenho iniciais por prejudicarem o desempenho térmico do edifício como um todo. Foi o caso dos vãos localizados a Norte, cujas dimensões foram alteradas por diversas vezes, para melhor se acomodarem ao objectivo pretendido. (As novas tecnologias têm trazido maravilhas ao processo do desenho passivo!!)

O gráfico apresentado em baixo demonstra a variação das temperaturas verificadas no interior e exterior do edifício nos dias 2, 3 e 4 de Janeiro de um ano típico do clima do Reino Unido.
Embora as condições internas da casa de taipa apresentem, aparentemente, um nível térmico desconfortável, será talvez importante notar os valores quase constantes das temperaturas (divisões internas mostradas em tons de verde), contrastando com as variações acentuadas verificadas no exterior (linha azul).
A maior diferença, em relação a uma construção típica de parede dupla com cavidade preenchida por isolamento (gráfico em baixo), reside, no entanto, na elevada capacidade térmica proporcionada pela massa das paredes de taipa. Funcionando como uma espécie de bateria, carrega durante o período diurno através da absorção dos ganhos solares e internos, libertando depois esta energia sobre a forma de calor para o interior da casa durante o fim da tarde/noite. As temperaturas internas sobem enquanto as condições exteriores se tornam mais frias e desconfortáveis. Na construção convencional, tal não se verifica, sendo que as temperaturas internas oscilam em paralelo com as externas.
Basicamente, é a diferença entre entrar em casa ao fim da tarde e encontrar 14˚C (casa de taipa) ou cerca de 10˚C (casa convencional), quando no exterior se vive o desconforto de temperaturas negativas (no exemplo apresentado).

Que conclusões se podem retirar deste tipo de estudos? Na minha opinião a resposta não podia ser mais simples. Encontramo-nos obviamente perante um material que não só tem toda a capacidade de ombrear com qualquer material actualmente existente na indústria da construção, mas apresenta também todas as características para desempenhar um papel importante na estratégia para a redução de consumo energético e emissões de CO2 oriundas do sector dos edifícios.

De que estamos à espera então?...

06/05/2009

Shed 2009

Os votos para o shed do ano de 2009 estão abertos!! Sem querer influenciar vivalma, o que vos mostro no link abaixo parece-me uma excelente escolha...

http://www.readersheds.co.uk/share.cfm?SHARESHED=2239

Construído em taipa, pertence a Michael Thompson, um verdadeiro activista na divulgação do material terra.

Por coincidência vou estar num workshop de taipa exactamente com este senhor, já no próximo fim-de-semana. Vou poder assim comprovar de perto que o meu voto foi merecido!

15/04/2009

Curso de Formação - Conservação e Recuperação de Taipa

Recebi hoje um email com a divulgação de mais um excelente curso de formação sobre conservação e recuperação de taipa organizado pela Associação Matriz, a realizar-se muito em breve pelos lados de Odemira.

Em baixo encontra-se o programa, tal como me foi enviado. (Obrigada Rui!)


AÇÃO DE FORMAÇÃO CONSERVAÇÃO E RECUPERAÇÃO DE TAIPA - Maio 2009 (*)

Duração da Ação: 35 horas

Formadores externos: Arqª. Maria Fernandes, Arq. Miguel Rocha, Engª. Maria Goretti – Formadora Residente: Arqª Susana Sequeira


PROGRAMA DE FORMAÇÃO:
  • 16 de Maio, Sábado Formadoras - Arqªs Maria Fernandes e Susana Sequeira
9:30/12:30 - Apresentação /Objetivos pedagógicos; Património arquitetónico do Alentejo
14:00/18:00 – Degradação – causas / patologias; Conservação – prevenção / reparação; observação de ruínas

  • 17 de Maio, Domingo Formadores Engª Maria Goreti Margalha / Arqªs Maria Fernandes e Susana Sequeira
9:30/12:30 – Argamassas de cal / análise do material / modos de preparação e aplicação
14:00/18:00 - Intervenção prática num edifício / planificação da intervenção / identificação da terra da construção

  • 22 de Maio, Sexta-feira Formadores – Arqs. Miguel Rocha e Susana Sequeira
9:30/12:30 – Intervenção prática num edifício / correção de diversas patologias superficiais
14:00/18:00 – Apresentação obra de recuperação / Intervenção prática sobre edifício / Reconstituição de zonas em ruína.

  • 23 de Maio, Sábado Formadores – Arqs. Miguel Rocha e Susana Sequeira
9:30/12:30 – Intervenção prática num edifício / correção de diversas patologias profundas
14:00/18:00 – Intervenção prática num edifício / reconstituição de zonas em ruína


  • 24 de Maio, Domingo Formadoras – Arqªs Maria Fernandes e Susana Sequeira
9:30/12:30 – Intervenção prática num edifício / rebocos de terra
14:00/18:00 – Finalização dos trabalhos. Sessão de encerramento / entrega de diplomas


(*) – Redigido segundo as novas regras do Acordo Ortográfico



Para mais informação e inscrições contacte o Sr. Raul Almeida através do email raulalmeida@matriz.org.pt

14/04/2009

Ainda sobre o reboco de terra...

Para complementar o post sobre o reboco de terra aqui ficam dois vídeos muito interessantes que demonstram o processo do fabrico do revestimento.



Blog - Construção de uma casa em cob

A navegação pelas várias páginas da web trazem quase sempre boas surpresas!
Descobri, graças a um blog que habitualmente sigo, um link para um outro que até entao desconhecia. Chama-se
The Year of Mud: Building a Cob House e retrata o percurso da construção de uma habitação feita em cob através do testemunho do seu futuro dono e construtor, um jovem de 24 anos de nome Brian.
Os posts sao fascinantes e quase sempre complementados com fotografias que nos levam a viajar até ao local da obra e acompanhar todo o processo como se fizessemos parte dele.
Transborda de paixão e entusiamo sendo por isso extremamente inspirador. Recomendo vivamente!

Deixo aqui umas fotografias do autor do blog para que fiquem curiosos! Não dispensa obviamente a visita!






As fotografias aqui apresentadas são todas da autoria de Brian Liloia, autor do blog The Year of Mud: Building a Cob House.

07/04/2009

Arte e rebocos de terra

Autor: Catherine Wanek


Acabamentos de textura ortogonal, rectilínea, regular e previsível. Esta é, na maior parte dos casos, a oferta disponível nas casas que adquirimos para habitar. Não que seja a nossa escolha, mas sim porque é o que a indústria está "formatada" para conceber.
O artigo publicado na Mother Earth News em Outubro/Novembro de 2007 lembra-nos a razão pela qual um acabamento chamado perfeito é por vezes apelidado de "dead" straight ou "dead" flat. Superfícies mortas (dead) não se movem! Falta-lhes dinâmica, variedade, variações de luz, sombra, cor, etc.
Poderia ainda juntar a esta lista a toxicidade existente em muitos dos materiais que nos rodeiam e que têm como consequência a absorção por parte do nosso organismo dos mesmos, mas essa seria matéria para um outro post.

É bom que se saiba que as alternativas existem e que não precisamos de viver segundo um conceito pré-estabelecido por uma indústria de construção que carece de vontade de mudar (ou será evoluir?).
O reboco de terra constitui uma boa forma de trazer um pouco de variedade e criatividade ao nosso quotidiano. Mais do que conectar cantos, a aplicação deste reboco oferece vida às paredes, conferindo-lhes assim um carácter escultórico e uma diversidade imensa de subtis cheios e vazios que se transformam em jogos de luz e sombra, elementos ausentes das superfícies lisas e aborrecidas que geralmente nos rodeiam.
A forma como apreendemos as três dimensões do nosso ambiente habitacional altera-se por completo quando contemplamos as arestas dos vãos de portas e janelas ligeiramente arredondadas ou, até indo mais longe, quando o acabamento da parede se torna numa pele única, formando um movimento fluído e suave que nos dá conta do limite que nos separa do exterior, enquanto se transforma também em mobiliário ou ornamentação. Tudo isto num só gesto.
Junta-se a estas vantagens a facilidade de todo o processo que começa na produção do reboco até à respectiva aplicação. Fácil de fazer e de fácil (e divertida) aplicação, sendo que muitas vezes a fronteira entre arquitectura e escultura se esbate enquanto “moldamos” o interior das nossas paredes.
Tenho visto muitos exemplos do que vos falo. Entre imagens e recordações do reboco de terra que apliquei em tempos, posso dizer que, embora tudo isto seja altamente subjectivo, o resultado é verdadeiramente fantástico.

Como podemos fazer então um reboco de terra?
As variações da “receita” são algumas, já que diferentes situações exigem diferentes soluções e a que reproduzo aqui é a seguida por Kiko Denzer, tal como revela no artigo Get Muddy! Make Earth Art no website Mother Earth News.

“1 parte de subsolo argiloso
3 a 4 partes de areia
Água q.b. (a mais pode causar fissuras)
1,5 parte de fibras finas (palha cortada, cabelo humano ou estrume seco de vaca ou cavalo)
Misturar todos os ingredientes numa máquina tipo betoneira ou mesmo de forma manual, usando uma pá ou outras ferramentas.
Lembrem-se que é mais fácil acrescentar do que retirar água!”
O autor diz-nos que a consistência do reboco que faz assemelha-se a manteiga de amendoim e que vai ajustando enquanto mistura os vários componentes.

Continuando, “quanto mais fino os materiais, mais fino vai ser o reboco. Os elementos de maior dimensão podem ser retirados com auxílio de uma rede (tipo mosquiteira)”
Depois é só aplicar nas paredes. Com a mão ou com qualquer outra ferramenta que sirva a função de espalhar o material!
Para alguma espessura e evitar fissuras é preferível aplicar em várias camadas, deixando que a anterior seque. Lembre-se de molhar ligeiramente e texturizar a superfície antes de aplicar outra camada.
Só para terminar, caso procure uma alternativa a uma superfície lisa (também possível de criar com rebocos de terra) aproveite a liberdade que este material oferece e crie diferentes formas texturas pela casa. Experimente usar diferentes meios para isso: garfos, colheres, pedaços de madeira, etc.
Divirta-se!

05/04/2009

WISE - Wales Institute for Sustainable Education

O WISE - Wales Institute for Sustainable Education, localizado no País de Gales oferece uma excelente oportunidade para quem deseja especializar-se na área da construção sustentável.
O Mestrado aqui leccionado goza já de uma reputação e reconhecimento inegualáveis a nível internacional, tudo graças à estratégia de combinação do ensino teórico com uma forte componente prática, ou como por aqui dizem, "hands-on". A consequência, segundo o instituto, é uma procura superior às vagas que o instituto pode efectivamente disponibilizar.

O novo edifício do Centro incorpora diversas técnicas e materiais escolhidos pelo reduzido impacto no ambiente. A terra, como não poderia deixar de ser, desempenha também o seu papel nesta estrutura, formando as paredes circulares de 7,2 metros do anfiteatro.

Quando em 2007 visitei o CAT - Centre for Alternative Technology, onde este edifício está implantado, a fase de construção era infelizmente bastante embrionária, no entanto, pela informação disponibilizada no website é possível ver que as paredes já se encontram erguidas.
Resta-me planear uma próxima visita ao País de Gales para dar uma espreitadela ao edifício depois de terminado.

Deixo um link para um vídeo com uma breve descrição do curso que referi anteriormente.

http://www2.cat.org.uk/wise/index.php?option=com_content&task=view&id=133&Itemid=109


E já agora, também umas fotos das paredes do anfiteatro.




03/04/2009

2007/ 2017 EARTHEN ARCHITECTURE, World Heritage Programme

fonte imagem: whc.unesco.org

O empenho de instituições internacionais como a Unesco na luta pela salvaguarda da herança física e intelectual da construção em terra tem ganho especial ênfase nos tempos que correm.
O programa 2007/2017 EARTHEN ARCHITECTURE da Unesco traça em linhas acutilantes o futuro desejado para a construção em terra, não só no que diz respeito ao edificado já existente, mas também ao que se espera vir a fazer parte do futuro ambiente construído do nosso planeta.
O programa acima referido é rigorosamente balizado entre 10 anos e conta com o apoio fundamental de uma equipa composta pelos maiores especialistas internacionais na matéria. Este possui como objectivos principais a melhoria do estado de conservação das estruturas de terra espalhada pelos mais diversos pontos do globo e uma difusão abundante e abrangente de boas práticas de construção, recorrendo para isso a cursos práticos junto das comunidades e publicação de manuais técnicos.

Segundo informação disponibilizada pela UNESCO, o 2007/2017 EARTHEN ARCHITECTURE, encontra-se estruturado em 4 fases. Sucintamente, passo a descrevê-las.


1ª Fase (2007-2008) Preparação
Primeiro passo de todo o processo, onde se abriram as portas para o mundo e se lançou o programa propriamente dito. Esta primeira etapa abrangeu tópicos como o levantamento de estruturas de terra inscritos na lista do Património Mundial, recolha de fundos e promoção do programa através de conferências internacionais, entre outros.

2ª Fase (2009-2010) Fase Piloto
Já recorrendo a uma componente mais prática, esta fase contempla a realização de reuniões e cursos/ workshops nas regiões de África e Estados Árabes.
A atenção que será dada à experiência de construção in situ é partilhada com a investigação e experiências laboratoriais focadas no desenvolvimento de técnicas de recuperação de estruturas em terra.
A produção de livros e guias técnicos decorrentes desta experiência garantirão a manutenção do conhecimento e a continuidade do trabalho iniciado.

3ª Fase (2011-2014) Fase de Consolidação
Esta fase contemplará as regiões da América Latina e Ásia. Mais uma vez, a ênfase recairá sobre a conjugação da componente prática e teórica da construção em terra. Identificação do património existente e educação para a futura construção fazem também parte dos objectivos a atingir nesta fase do programa.

4ª Fase (2015-2017) Fase Final
Cabe à Europa e Ásia o fecho. Para além dos pontos mencionados nas fases anteriores, espera-se que o conhecimento da conservação de arquitectura de terra seja inserido nos programas curriculares das universidades e instituições de ensino regionais.
Será então o momento de fazer o balanço final, aferindo os resultados do ambicioso programa iniciado em 2007.

Em 2017, esperemos encontrar um mundo onde as pessoas estarão plenamente conscientes da importância da construção em terra nas suas vidas e no contexto arquitectónico mundial!

Pode encontrar informação mais detalhada sobre o programa 2007/2017 EARTHEN ARCHITECTURE na página de internet da UNESCO.

31/03/2009

Workshop prático e teórico - Rammed Earth

Finalmente encontrei forma de me envolver na componente prática da construção em terra e "meter a mão na massa" aqui no Reino Unido! Inscrevi-me hoje para a frequência de um workshop a realizar-se em breve para os lados de Norfolk.
Pela informação disponível no site adivinha-se um fim-se-semana interessante. O programa do curso é bastante completo e os instrutores prometem abordar as áreas essenciais da técnica de construção da taipa.
Bom, resta-me então aguardar a chegada do mês de Maio (e já agora que seja rain-free!)
Se por acaso alguém estiver pelo Reino Unido nesta altura e quiser inscrever-se, aqui fica o website com a informação:


Não resisto em deixar algumas fotos referentes a workshops anteriores, também retiradas do mesmo site.




27/03/2009

Escultura em taipa - Oxford




Todas as fotografias foram retiradas do seguinte website: http://www.katybeinart.co.uk/page2.html
Trago-vos hoje um testemunho da possível utilização da técnica da taipa em situação de desenho de espaço exterior.
Esta escultura foi conceptualizada pela artista Katy Beinart e encomendada pelo Warneford Hospital. Foi concebida graças à ajuda de 25 pessoas que se disponibilizaram a participar num workshop que serviu de pretexto à sua construção.
Podem encontrar mais informação AQUI.
Para a semana vou lá dar uma espreitadela para ver de perto esta escultura. Trarei registos fotográficos!

24/03/2009

Visita Casa Fenu, Sardenha (Mediterra 2009, dia 16/03)




A última visita do dia 16 de Março último, reservado para o percurso pelas aldeias de terra do Campidano, coube à recentemente recuperada Casa Fenu, edifício que faz parte do património histórico e cultural da aldeia de Villamassargia.
Os cerca de 1600 metros quadrados de área ocupada com o edifício construído com terra crua remontam originalmente ao séc. XIX e foram agora devolvidos à comunidade, após um projecto de recuperação que teve como princípio motivador o respeito e conservação pelo património arquitectónico.

O cheiro da terra, a cor e textura tão característicos deste belo material ancestral, misturam-se aqui harmoniosamente com elementos de construção contemporânea, criando espaços extremamente agradáveis e dignos de exemplo. Confio que a comunidade esteja orgulhosa desta iniciativa.
A busca das raízes culturais e referências arquitectónicas, aliada a uma dimensão construtiva respeitadora e consciente da natureza e contexto envolvente, constituem uma forte motivação para o futuro do panorama arquitectónico contemporâneo na região da Sardenha.
Uma referência a seguir, sem qualquer dúvida.

23/03/2009

Uncompromising Ecological Architecture - 2.º Capítulo

21/03/2009

Eventos - 6.º atp | 9.º siacot

As imagens abaixo contêm informação referente ao 6.º Seminário Arquitectura de Terra em Portugal e 9.º Seminário Ibero-Americano de Construção com Terra a realizar de 20 a 23 de Fevereiro de 2010 na Universidade de Coimbra, Portugal.


folheto seminário(rosto)

folheto seminário(costas)

18/03/2009

Sobre a Mediterra

O tempo pareceu voar desde o dia em que aterrei em Cagliari. Estou de volta ao Reino Unido e com a mente a fervilhar de tanta informação para assimilar.

O balanço foi totalmente positivo, não só por se ter reunido uma equipa de pessoas fabulosas com uma dedicação imensa ao trabalho que se encontram a desenvolver, mas também por toda a equipa organizadora do evento, que não esqueceu o mais pequeno detalhe.

Ainda me encontro a digerir todo o precioso conteúdo da MEDITERRA, e julgo que depois deste sairão uns quantos posts inspirados pelo evento. No entanto, posso dizer que sou agora uma pessoa muito mais confiante na "causa da Terra". Esqueçamos o que se diz ingenuamente em relação à pobreza e escassez da construção em terra! O número de pessoas motivadas no sentido de reafirmar a terra como material de construção maior, aumenta de dia para dia assim como as iniciativas desenvolvidas sobre a temática.

De destacar foi a presença do grupo de peso (as referências na matéria) do evento, que partilharam com a maior das humildades o seu conhecimento, deixando transparecer a paixão que provavelmente os fez dar o primeiro passo há uns 20 anos atrás. Refiro-me concretamente a Hugo Houben, Henri Van Damme e Hubert Guillaud.

Também os portugueses provaram que avançam em grande força na utilização e divulgação da terra. Entre 35 nacionalidades, Portugal esteve representado com 20 elementos.

Sem querer retirar qualidade às restantes apresentações lusitanas, julgo que merecem especial menção a de Maria Fernandes que mostrou, na Aula Magna da Facoltá di Ingegneria, imagens de cursos práticos ligados à construção em terra realizados em Portugal e ainda a apresentação do arquitecto Gilberto Carlos que nos conduziu numa viagem fascinante através das fortalezas espalhadas pela fronteira norte de Portugal.

Foi também formalmente lançado o livro TERRA INCÓGNITA, um documento indispensável a quem se interessa por esta temática.
Até à próxima Mediterra!

10/03/2009

Mediterra2009 a dois dias!


O conhecimento relativo à arquitectura de terra tem explorado diferentes formas de expansão nos tempos que correm. Conferências, seminários e workshops dedicados a este tema multiplicam-se pelos mais variados pontos do globo e representam a prova, não só do crescente número de especialistas no assunto, mas também dos interessados em adquirir o saber partilhado nestes eventos.
David Easton lembra-nos no seu livro, The Rammed Earth House, que o fascínio pelo material terra e a busca pelo seu revivalismo, não constituem acontecimentos isolados, já que também por volta de 1840 e 1930 se observaram ondas de interesse na reaplicação das técnicas de construção com terra. A diferença reside agora nas condições e ferramentas disponíveis para a difusão do conhecimento. O regresso da terra (que na verdade nunca partiu) veio para ficar.
A dois dias de partir para Cagliari, constato que também eu farei parte desta massa de pessoas empenhadas em estender o seu conhecimento da “ciência” da construção em terra crua.
A Mediterra2009 apresenta-se aos participantes com um programa diverso, contemplando especialistas das mais distintas origens e nacionalidades, entre os quais, como não poderia deixar de ser, também se encontram nomes portugueses.
Viajo munida de cadernos e lápis em punho, preparada para registar notas, pensamentos e desenhos, convicta que voltarei ao Reino Unido com a certeza que o saber não ocupa lugar.
Aos colegas que vão estar por lá, aqui fica um até breve!

04/03/2009

And the work goes on...


02/03/2009

Energia incorporada nos materiais de contrução

Enquanto arquitecta, e sobretudo enquanto ser consciente do impacto da mão humana no planeta, não posso deixar de acentuar a importância do conceito de energia incorporada aplicado por exemplo aos materiais de construção. A título de exemplo, saiba-se que no Reino Unido, 5% do total da energia consumida anualmente destina-se à produção de materiais de construção. A realidade portuguesa não deve andar muito longe.
A determinação da energia incorporada torna-se mais uma variável usada com o fim de definir a quantidade de emissões de CO2 decorrentes do processo de fabrico do material e, consequentemente, do edifício a construir. Embora existam várias teorias que eliminam diversas fases do processo, como por exemplo o transporte que quando contemplado nos cálculos é responsável por uma grande percentagem do total de energia incorporada, o princípio mantém-se e leva-nos a questionar o verdadeiro custo dos materiais de construção que especificamos para os nossos projectos.

Poderá argumentar-se que porque passámos a dominar a ciência da produção de energia, passámos também a possuir a escolha da criação de materiais que só existem graças a esta ciência. Produzimos energia, logo podemos usá-la a nosso bem entender! Acredito que esta frase tenha servido (e ainda no presente) como justificação para muitos dos erros cometidos que lançaram a indústria da construção para o topo da lista das mais energívoras do planeta.

Não posso deixar de imaginar esta atitude perante o uso da energia como uma espécie de ostentação de riqueza. "O tecto da minha sala veio da Escandinávia, a minha mesa é de madeira tropical oriunda do Brasil, as janelas viajaram desde a Alemanha..." e por aí adiante, são frases nada estranhas para quem lida com estas coisas da arquitectura (e não só). Quantas vezes paramos para pensar no que está verdadeiramente por trás disso? Qual é o verdadeiro custo desses belos tectos, mesas ou janelas? Extrapolando até para além dos custos a nível de consumo energético, parece-me também legítimo questionar o verdadeiro custo social destes "caprichos"?
Esta complexa rede de perguntas, com respostas pouco desejáveis, fragmenta-se quando trazemos à discussão a utilização de materiais naturais (sem no entanto esquecer o factor da localidade da sua extracção), entre os quais se encontra a terra.
A terra enquanto material de construção encerra em si uma história de uso que remonta a tempos em que não se sonhava sequer com a futura existência de qualquer coisa que se assemelhasse a energia eléctrica. Arrisco afirmar que os maiores gastos energéticos eram consumados graças à pura força de músculo humano.
Podemos (e devemos) com certeza adaptar-nos ao presente. É também aqui que este material tem imenso potencial para oferecer enquanto alternativa a materiais com elevada energia incorporada.
A utilização de matéria-prima extraída do próprio local de construção aliada ao uso escasso de maquinaria (julgo que este factor dependerá sobretudo da escala do projecto) e a busca da harmonia entre o edificado e a natureza, constituem uma boa receita para atingir o equilíbrio perfeito entre a sustentabilidade económica, social e ambiental.
Voltarei a este assunto em breve.

26/02/2009

A construção em terra ao serviço da educação

Os telespectadores da SIC ficaram hoje a conhecer duas escola em Albufeira construídas com taipa e adobe.
De notar é o entusiasmo dos trabalhadores que manifestamente apreciam bastante a experiência de trabalhar com o material terra.


23/02/2009

A Taipa na malha urbana de Oxford


Um parque de estacionamento de apoio a uma superfície comercial, 2900m2 de terreno e uma malha urbana típica de uma cidade inglesa enquadram o cenário perfeito para o desenvolvimento de uma nova zona da cidade Oxoniana.
Ombreado por uma das ruas mais conhecidas de Oxford e uma escola primária, este terreno, encerra em si o potencial imenso de contribuir para o melhoramento da vivência desta área, não perdendo de vista o principal objectivo da criação de arquitectura Low Carbon, eliminando desta forma a descaracterização e o rótulo de "não-lugar" conferido pela utilização corrente como parque de estacionamento.

O primeiro passo, dado com o exaustivo green brief garante a futura existência deste espaço como um dos empreendimentos mais conscientes da importância da construção sustentável na cidade. Preocupações que vão muito para além do desenho passivo, farão dos futuros ocupantes dos edifícios e espaços projectados, directos intervenientes na melhoria da sua qualidade de vida, graças à utilização da terra enquanto material de construção aliada a um design atractivo e contemporâneo e a uma concepção espacial urbana consciente da importância da vivência social da zona.

A existência de habitação destinada a diferentes públicos-alvo (variando entre o estudante e a família composta por vários elementos), zonas comerciais, edifícios de carácter público, espaços verdes, home-offices, esquema de carpooling para residentes, prioridade concebida ao peão e ciclista em detrimento do acesso automóvel, redução de emissões de CO2 graças à utilização de energias renováveis e materiais locais e mesmo lotes de horta urbana são alguns dos elementos presentes no design brief que farão do projecto um verdadeiro desafio.

Interessante? É de facto bastante interessante. Será o meu trabalho dos próximos meses, como que para completar o programa do MSc, procurando reunir num trabalho final todo o conhecimento adquirido nos 2 anos do curso.
Infelizmente é um processo totalmente académico e nunca sairá do papel (nunca se sabe...), espera-se no entanto que procure representar fielmente a realidade, o que na prática significa que todo o trabalho de investigação terá de ser realizado como se de um verdadeiro projecto se tratasse.
Encontra-se numa fase relativamente embrionária mas a avançar a bom ritmo. Como já referi: é um verdadeiro desafio, mas extremamente emocionante.

10/02/2009

Nader Khalili

Descobri recentemente um livro do visionário Nader Khalili e não resisti em partilhar estas palavras com quem visita o blog.
"The more we know about clay's ingredients and its technical properties of elasticity, the more we replace it with plastics. This is a problem of technology, which gives us only piecemeal knowledge of each individual substance of a test tube.

We can't see the clay as a mass with a soul that might create new phenomena should we, for example, set fire to it. We talk about its low strength and unpredictable behaviour. We don't talk about how rocks and mountains are created from it.The simple elements of water, earth, air and fire can still create, if the magic of their intimacy is understood, the most perpetual relationship between matter and spirit.

(...)

How is that humans created the most beautiful structures and spaces out of clay before the technology of today stopped them at the elastic limit of this material?
How is it that since the strengths of materials have been known and sophisticated calculations have been developed, no architect or engineers dares to build a mud vault or more than a 3 metre span? And yet, far bigger spans were built hundreds of years ago and still stand in the ancient cities, such as Yazd and Kashan, along the great desert.
Those 6 metre mud vaults were not built from mathematical theories, but from the freedom of soul to soar beyond the accepted 3 metre limit. To say that we know a lot more about clay and its properties today than at any previous time in history is no justification for the fact that we have lost the feel for it."
Khalili, N. (1983) Racing Alone: A visionary architect's quest for houses Made with earth and fire. New York: Harper & Row Publishers

28/01/2009

Forno de terra moldada/empilhada

Fonte: Weisman, A., Bryce, K. (2006). Building with Cob: a step-by-step guide. p. 191. Green Books Ltd: Devon
Quem teve a sorte de passar a infância a sentir o cheirinho do pão fresco a sair do forno sabe bem a influência que um objecto desta natureza tem nas nossas memórias.

A sugestão que vos trago hoje é na verdade mais uma das aplicações que o material terra pode proporcionar: um forno de terra.

O processo é simples, ou assim se diz. Apesar de fazer parte dos meus planos, nunca construí um forno de terra. Aqui fica então mais uma das minhas investigações.

Antes de iniciar a construção do forno convém pensar no local onde vai ser implantado e ter algumas questões, que influenciarão o funcionamento do forno, em consideração. Alguns exemplos são: não estar demasiado exposto aos ventos dominantes, distância de materiais inflamáveis, protecção dos elementos atmosféricos, entre outros.

Segundo o livro Building with Cob: a step-by-step guide (2006), o forno propriamente dito é feito com três camadas de diferente constituição: uma mistura sem palha (que vai estar em contacto com o calor) e uma mistura normal com palha a servir de "enchimento" e um acabamento respirável de preferência de reboco de terra.
O forno é esculpido em torno de areia moldada em forma de cúpula que é depois retirada, já depois do Cob ter adquirido consistência suficiente para se manter intacto.
No exemplo desta imagem a fundação é feita com recurso a pedras com vários tamanhos. Utilizam-se ainda tijolos cozidos, cuidadosamente colocados, na base do forno. Será essa a superfície a receber as delícias que vão assar no forno.
Este site descreve todo o processo com fotografias. Merece uma vista de olhos, definitivamente!

25/01/2009

"The future of Mud: a tale of houses and lives in Djenné"



Aqui está um documentário que me parece ser fascinante. Tenho procurado um website onde esteja à venda mas sem sucesso. Será que alguém me pode ajudar?

Deixo em baixo a descrição do filme e o link para o Trailer.

VEJA AQUI O TRAILER:
http://www.susan-vogel.com/movies/FM.html

"In the Future of Mud: A Tale of Houses and Lives in Djenné, a documentary on the rich heritage of earth architecture in one town in Mali, Africa, one gets a true sense of love of craft combined with a love for the creative and integrative possibilities of earth.
Directed by Susan Vogel, the film follows the life of a real mason in the town of Djenné (Mali, Africa) named Komusa Tenapo. Using research culled from Canadian anthropologist Trevor Marchand, the film has an interesting approach to demonstrate the everyday realities and overarching socio-cultural issues of earth building in this historical African town, using real-life and fictitious characters, re-enactments, interviews and live footage to present a very believable, instructive and compelling narrative about traditional building practices and how it intertwines a rich, underlying dimension to Djenné’s social and urban fabric.
The film also presents an alternative perspective to the future of earth architecture in a world where architecture is increasingly mechanized and where on the other hand, it is also estimated that half of the global population lives and works in an earth building. This film skillfully demonstrates that more so than “regular” buildings, earth buildings can occupy a special place rooted in humanity’s cultural consciousness and encourage a more intimate relationship between the builder and the built, a community and the Earth – as the material transformed from formlessness to form. This collective connection to earthen architecture is best seen in the film’s footage of the annual re-plastering of the town’s pride, the Great Mosque, which is the world’s largest earth building, in addition to being a distinguished UNESCO World Heritage site. The first earthen structure here on this site dates back to the 13th century and is re-plastered every year. The day-long, annual festival is truly a communal affair, with plenty of foreign tourists gawking on and filming the orderly chaos. Thanks to Mali’s efforts to preserve this valuable tradition, Mali is one of the centres of earthen architectural heritage, with next year’s 10th annual Terra Conference taking place there. If Mali is as out of your means as it is out of mine, then check out The Future of Mud to get a taste of real, down-to-earth architecture.
Credits: Produced by Susan Vogel, Samuel Sidibé, Trevor Marchand & the Musée National du MaliYear: 2007"

Fonte:

23/01/2009

A simplicidade do saco de terra

Sou tantas vezes questionada sobre a técnica de construção com sacos de terra, também conhecida como super-adobe, que não resisti a dedicar-lhe mais um post.

A utilização de sacos de terra como forma de criar uma estrutura resistente não é uma novidade, já que é prática comum para montar barreira por exemplo a cheias.
Aplicada à arquitectura, terá uma origem mais contemporânea. O seu fundador, o visionário Nader Kahili iniciou esta prática como forma de edificar a baixo-custo e também procurando uma solução possível para a problemática da degradação ambiental.
Começou por aplicar princípios ancestrais largamente demonstrados como eficientes - cúpulas e arcos – adaptando-os a esta nova “tecnologia”.
Apesar de ser habitual a utilização da cúpula, o material permite erguer paredes lineares adaptando-se com facilidade a vários desenhos.


Fig 1 - exemplos de sacos - Fonte: (Humper e Kiffmeyer, 2004)


É uma técnica que prima sobretudo pela simplicidade. Basicamente, sacos são cheios com uma mistura de terra previamente humedecida, após cada camada a terra nos sacos é batida e compactada com recurso a ferramentas simples. Entre cada camada é colocado arame farpado que mantém as partes juntas conferindo-lhe uma boa resistência à tensão.

Fig. 2: A introduçao do arame farpado e malhas metálicas - Fonte: (Humper e Kiffmeyer, 2004)


Quanto aos vãos, é necessário que se coloquem previamente formas que podem ser retiradas após o terminus da construção das paredes.
As fundações podem ser feitas de várias formas. A título de exemplo, mistura de escombros e pedras ou a utilização de um embasamento de terra misturada com estabilizantes de cimento são soluções comuns. Outros tipos de fundações podem ser adaptadas a localização climática e função do edifício a ser erguido.


Fig. 3: Formas para vãos - Fonte: (Humper e Kiffmeyer, 2004)


- Vantagens em relação a outras técnicas de construção em terra:
Utilizam o mesmo material para erguer toda a casa, desde as paredes ao telhado. Evita-se assim, por exemplo, o uso de madeira ou outros materiais para a estrutura do telhado.
A construção com sacos de areia não requer tanta atenção como por exemplo o adobe, para o qual a mistura tem de ser a certa (idealmente) e que tem de passar por todo um processo de cura por vezes moroso. No caso da técnica aqui apresentada o molde permanente é dado pelos sacos que são cheios de terra, evitando uso de cofragens ou moldes (ao contrário da taipa e adobe), o processo de cura é feito depois de serem aplicados (poupando tempo na construção), a mistura do seu conteúdo nem sempre precisa de respeitar as quantidades aconselhadas como perfeitas ou ideais, já que os sacos compensam a má qualidade da mistura e garantem a resistência pretendida.

Para quem duvida da eficácia desta técnica face às mais diversas agressões, saiba-se que testes rigorosos foram levados a cabo nos EUA. Os resultados provaram que casas feitas com sacos de terra resistem ao fogo, inundações, furacões, térmites e tremores de terra. Obviamente que a técnica terá de ser correctamente executada e, segundo Hunter e Kiffmeyer (ano) a chave deste sucesso reside na conjunção da forma monolítica com o sistema de construção com sacos de terra.

O que é então necessário?
Testar a mistura ideal do solo com o qual se vai efectuar a construção; a mistura variará dependendo da situação e intenção; os sacos devem ser de material respirável, vários formatos são utilizados (ver fig.1), desde sacos individuais a rolos contínuos que se cortam e preparam à medida desejada; o arame farpado, que serve como “velcro” para manter os sacos unidos e conferirem à parede resistência e unidade (fig. 2). Como opção podem ainda utilizar-se outros materiais que ajudam por exemplo na aderência do reboco de terra, tal como as malhas metálicas; as formas para a abertura dos vãos e as ferramentas para a compressão dos sacos (semelhante às usadas para a taipa) (fig.3).

O processo em si é um pouco mais complicado, e como qualquer técnica exige conhecimento e prática. No entanto, a simplicidade que se lhe associa aparenta ser genuína. De aprendizagem rápida e eficiência extraordinária esta é mais uma das utilizações da terra que tem ganho aceitação nos quatro cantos do mundo, cumprindo com nota positiva os testes a que se tem proposto.

Este post foi baseado na informação do livro Earthbag building:The tools tricks and techniques (2004)dos autores Kaki Hunter e Donald Kiffmeyer da editora New Society Publishers. As imagens aqui apresentadas foram extraídas da mesma publicação.
(Consultar página da editora para mais pormenores: http://www.newsociety.com/bookid/3842)

Já como nota pessoal, não vejo a hora de por mim experimentar construir qualquer coisa com esta técnica!

21/01/2009

Andamento da tese

Hobo: data logger - Uma ferramenta fundamental para registar e guardar temperatura e humidade de um espaço

Como já referi em posts anteriores, encontro-me a desenvolver uma tese relacionada com a arquitectura de terra contemporânea portuguesa para o MSc.
Embora, para já, esteja sobretudo dedicada à investigação para assimilar totalmente a temática, iniciei ontem a análise de alguns dos registos de temperatura e humidade que trouxe dos meus case studies em Dezembro.
Ora, comecei por construir o gráfico com as temperaturas exteriores e interiores do período de tempo em que deixei o equipamento (hobo) num dos case studies. Quase por senso comum já sabemos que o comportamento dos edifícios de terra vai ser bom, isto é, de alguma forma vai proteger o interior das condições exteriores. No entanto, quando podemos ver isso acontecer na realidade com base em medições reais é fabuloso!
Posso dizer que o "objecto de estudo" em questão não tinha aquecimento a funcionar, apesar de o ocupante admitir acender por vezes a salamandra em dias mais rigorosos.
O hobo esteve a funcionar das 14:40 até às 18:00h, infelizmente não o deixei mais tempo, pois caso o tivesse feito o que se começou a registar por volta das 17 seria ainda mais notório.
A linha da temperatura exterior esteve sempre ligeiramente abaixo da temperatura interior. A partir das 17h a temp. exterior começou a desenhar um movimento descendente enquanto que a interior começou a fazer exactamente o oposto. No momento em que a temperatura exterior descia, a interior subia, o que iria garantir uma temperatura confortável no fim da tarde, sem recurso a aquecimento. É esta uma das características fantásticas da massa térmica.
Muito interessante.
Apesar da intenção de analisar o comportamento nos dias rigorosos do inverno, as expectativas estão a recair sobre os picos de calor do verão, já que a tendência será para um aumento das temperaturas no futuro. O equipamento fixo que deixei instalado nas casas vai revelar resultados interessantes, espero eu.

20/01/2009

Adobe - bloco de terra seco ao sol

Fotografias em Tamera (2006)
Foi em 2006 que deitei as mãos à obra para fazer os primeiros blocos de adobe. Sob a supervisão do arquitecto alemão Gernot Minke julgo que o grupo de trabalho conseguiu fazer umas boas centenas lá para os lados de Odemira. Tamera, Monte Cerro: uma experiência que ficará para sempre no meu coração.
Sobre esta técnica eficaz, rápida e devo dizer, bem divertida, cabe-me agora escrever umas quantas palavras (até porque preparo neste momento o "capítulo" do adobe para o site). Nada que muitos de vós não saibam já, no entanto, e para aqueles que só agora folheiam as primeiras páginas sobre a terra ou frequentam os primeiros workshops, cá vai um pequeno incentivo para que a pesquisa continue.

Alguns autores dão-nos conta de mais de 20 técnicas diferentes no que diz respeito à utilização da terra como material de construção[1]. Apesar diso, a taipa e o adobe parecem ser as mais difundidas nos dias de hoje.
A simplicidade é talvez a principal característica que define a técnica do adobe. Ao moldar, sem compactar, terra em combinação com palha, areia e por vezes outros agregados [2] , obtêm-se um bloco que depois de seco ao sol pode ser utilizado, ora para erguer paredes interiores ou exteriores como elemento estruturante, ora apenas com carácter de enchimento em conjunção com uma estrutura de outro material. O tijolo de adobe pode também ser utilizado para outras situações tais como revestimento de pavimentos, construção de abóbadas, coberturas, etc.

O processo de fabrico do adobe tem a capacidade de se adaptar às possibilidades e necessidades do fabricante e/ou construtor. O molde pode ser concebido para produzir um ou vários tijolos em simultâneo, resultando esta última opção numa maior eficiência aliada à produtividade.
A matéria-prima propriamente dita, que consiste, como foi referido, numa mistura de vários componentes onde a terra desempenha o papel fundamental, é a chave para que o resultado final seja o pretendido: um material de boa qualidade, seguro e suficientemente credível para ser utilizado na construção de um edifício.

Caso a opção seja utilizar os materiais locais, a mistura que compõe o adobe pode variar dependendo dos recursos disponíveis e da sua qualidade. A mistura perfeita para a criação de tijolos de adobe de alta qualidade tem sido estudada por especialistas, sendo que as proporções ideais (segundo alguns especialistas) rondam 55 a 75% de areia, 10 a 28% de siltes e 15 a 18% de argila [3]. A receita pode, de facto, variar, no entanto, é fundamental perceber que a alteração da quantidade de cada um dos componentes pode conduzir a diferentes comportamentos do material obtido. Demasiado barro, por exemplo, tornará o tijolo potencialmente mais fraco mas com maior capacidade de resistência à água, enquanto que uma mistura com maior quantidade de agregados originará um tijolo mais forte mas mais susceptível à erosão [2]. Assim, o segredo reside no conhecimento prévio das condições locais, conhecimento esse que aliado a experiências e testes conduzirão aos melhores resultados.
Referências

[1] - Minke, G. (2006). Building with Earth: Design and Technology of a Sustainable Architecture. Basel, Switzerland: Birkhäuser
[2] - Rael, R. (2009). Earth Architecture. New York: Princeton Architectural Press
[3] - Fernandes, M., Correia, M. (eds). (2005). Arquitectura de Terra em Portugal. Lisboa: Argumentum

15/01/2009

the roof above my head - O SITE


O projecto é antigo, ou pelo menos a vontade de concretizar qualquer coisa do género é. O blog "roof" vai ser em breve complementado com uma página na internet que cumprirá o fim de partilhar informação relacionada com a Arquitectura como parte de um todo composto pelo Homem, o Planeta e o Ambiente Edificado.
A terra enquanto material de construção terá com certeza um lugar especial, uma vez que é com esta temática que estou a desenvolver o meu percurso profissional, por assim dizer.
No entanto, e porque (como me disse há umas semanas uma pessoa entendida no assunto) "a arquitectura de terra antes de ser arquitectura de terra é Arquitectura" prefiro utilizar somente o termo Arquitectura para definir o counteúdo do futuro site, já que abarca todo um conceito onde não só cabe a terra mas também outros materiais, técnicas, etc.
O espaço estará por enquanto (e durante os próximos meses) em construção. Espero dar-lhe vida aos poucos e dedicar-lhe algum tempo pelo meio de outras tarefas que tenho agendadas até pelo menos início de 2010. Será também uma boa forma de me ajudar no percurso académico pós-universitário, uma vez que me ajudará/ obrigará a estudar e pesquisar.

Acima de tudo, é com desejo de contribuir para o panorama da arquitectura global que o www.theroofabovemyhead.com fará parte do mundo do ciberespaço.

13/01/2009

A Taipa e o Conforto Térmico

Há uns meses foi-me solicitado que fizesse um trabalho, ou como chamam aqui um paper, no âmbito da disciplina de POE (Post Occupancy Evaluation) inserida no programa do MSc. Tinha como única exigência estar relacionado ou directamente com o conceito do POE ou com um dos seus sub-temas: O Conforto Térmico.
Decidi então abordar a temática da Terra, como já tem vindo aliás a ser comum no decorrer do mestrado. A Taipa e o conforto térmico.
O objectivo foi então determinar se o material providencia ou não um conforto térmico aceitável e como esse facto influencia a sua utilização e habitabilidade dos espaços.
Pois bem, após algumas semanas de research não foi muita a surpresa ao verificar que os dados científicos disponíveis para esta temática em particular são muito escassos, o que não acontece para outros materiais. No momento em que escolhi o tema o meu professor avisou-me que seria muito complicado arranjar uma base científica para daí retirar qualquer conclusão. Não me demoveu claro está.
Foi então que pensei que esta talvez seja uma das causas para a falta de credibilidade do material (na opinião de alguns, claro, já que é mais do que credível para mim e muitos outros profissionais). Falta de números e dados reais que lhe confiram o devido lugar na "prateleira dos materiais de construção" disponíveis para escolha.
Eu sei, a primeira frase que nos vem à mente é qualquer coisa do género "A casas de taipa são confortáveis sim, toda a agente sabe". É de facto verdade, toda a gente sabe, e quem já experimentou os seus interiores pode afirmá-lo. Inúmeros são as publicações a mencionar exactamente este argumento, no entanto, há muito para desenvolver no ramo da investigação para que tenhamos acesso a mais do que apenas resultados subjectivos.
O conforto térmico é, nos dias que correm, quase uma ciência que utiliza escalas rigorosas de avaliação e cujos resultados são incorporados em estudos completos sobre desempenho ambiental de edifícios. Pessoas como Humphreys ou Nicol dão-nos a base para trabalharmos os edifícios de terra com o mesmo rigor, avaliando não só a sua performance mas também a sua aceitação pelos utilizadores.
Não é suficiente dizer que temos edifícios belos feitos com terra, temos também de afirmar que funcionam com o devido suporte cientifico! Trabalhemos então para que a investigação continue neste sentido.

12/01/2009

Momentos de Inspiração - Christopher Day


Jardim de infância no País de Gales (em cima: pormenor da cobertura, em baixo: entrada principal)


Edifício no País de Gales (fotos tiradas em Março de 2008)


Neste mundo de banalidades e repetições são poucos são os momentos que ainda nos conseguem deixar num estado de transe que nos rouba da mente todas as palavras por alguns instantes.


Felizmente, existem ainda pessoas cuja capacidade se sonhar e transmitir aos outros da forma mais positiva e inspiradora possível a sua postura perante a vida. Até ter conhecido a obra deste senhor de quem vos falarei já de seguida, tive muitas vezes a sensação de andar um pouco “perdida” e sozinha no que diz respeito à minha postura perante a arquitectura, não por falta de convicção ou empenho, mas sim por nunca ter encontrado alguém com quem partilhasse totalmente os meus ideais e princípios. Ler Christopher Day foi como ler os meus pensamentos, revi-me em cada palavra e inundei-me de felicidade por saber que muitas das coisas que sempre defendi afincadamente (e que pelas quais nunca fui levada a sério) têm afinal um fundamento científico e, melhor ainda, uma razão de ser.


Quedar-me diante das obras de Christopher Day foi, sem qualquer dúvida, sentir que o percurso que decidi seguir na arquitectura faz todo o sentido. Basta de ouvir que depois de sair da universidade é preciso que esqueçamos a poética do espaço para entrar no mundo real… Tais rudes palavras não poderiam estar de facto mais longe da verdade. Que a poética nunca deixe de guiar o nosso lápis na virgem folha de papel!


A arquitectura, segundo Day, tem um efeito de tal forma profundo na essência do ser humano, no local, na consciência e no mundo que parece totalmente fútil a preocupação com estilos e modas. Lembra-nos que qualquer coisa com tanto poder tem obviamente responsabilidades acrescidas para connosco e também para com o mundo, pois é preciso assumir que tal “arma” tanto pode ser usada de forma negativa como positiva. Será portanto nossa a tarefa de usar a arquitectura para o bem do mundo, ajudando na resolução de problemas que minam a actualidade e ameaçam o futuro.


As suas palavras são uma viagem pelo tema da arquitectura sempre profundamente enlaçado com o tema da vida humana assim como a sua relação com o planeta que nos oferece abrigo sem pedir nada em troca.


Quanto tempo não passamos nós sentados na frente de um computador, clicando milhares de vezes num objecto que, substituindo o lápis, traça linhas desprovidas de vida com o objectivo de tornar uma fachada “bonitinha”? Porque não começamos a deixar de lado o interesse em “objectos” para perceber como a nossa intervenção vai influenciar o local e as pessoas que o vão habitar?


Que materiais vamos utilizar? Que vida tiveram esses materiais? Escolher entre uma parede concebida à base de materiais sintéticos, fruto de inúmeros processos artificiais e altamente “energívoros” que nunca fará parte de um ciclo de vida completa ou uma parede de terra que já foi ela própria vida e que voltará a alimentar vida faz TODA a diferença.
Como vamos então lidar com esta responsabilidade? Que escolha fazemos para o nosso futuro enquanto profissionais?


Recomedo: Places of the Soul de Christopher Day (descrição aqui)

05/01/2009

O crescimento populacional no mundo em desenvolvimento

Não sabia bem quão difícil seria manter um blog (e só lá vão uns quantos posts). Por vezes demasiadas tarefas acabam por roubar tempo umas às outras. O “roof” por cá tem andado a desfrutar do seu espaço silencioso no mundo da informação virtual que ganha cada vez mais adeptos desta temática que me é tão profundamente querida - a "terra".

É um pensamento que hoje me prende os dedos ao teclado: o crescimento desmesurado da população mundial.

Quantas vezes não nos chegou já ao conhecimento que a população mundial aumenta todos os anos de forma quase absurda?

Os números são da Organização das Nações Unidas e dizem-nos que em 2050 vamos ser cerca de 9 mil milhões, ou como se diz por aqui pelo Norte da Europa, 9 biliões…
Meus caros, para surpresa de muitos, é aos países em desenvolvimento que cabe a maior fatia deste “bolo populacional”. Se agora lhes pertence cerca de 81%, as previsões indicam que os números não se vão ficar por aqui e, enquanto nos países desenvolvidos se espera a estagnação ou mesmo diminuição da sua população, os países em desenvolvimento continuam a subir no gráfico da população mundial à medida que os anos passam.
A razão pela qual trago este assunto às páginas do “roof” prende-se com as zonas do mundo de tradição vernácula ligada à arquitectura de terra.

Ora, segundo o Atlas da Arquitectura Vernácula do Mundo, algumas zonas de África, O Médio-Oriente, a Ásia e a América do Sul têm como elemento comum o facto de há muito conhecerem a realidade dos benefícios da terra enquanto material de construção. São inúmeros os casos conhecidos e amplamente usados como exemplos sempre que se aborda o assunto em qualquer livro, revista ou conferência.
Ora, a minha questão é a seguinte: quais serão as consequências não só do crescimento populacional exponencial mas também das rotas migratórias das zonas rurais para as urbanas nestas zonas do globo?

Não querendo generalizar esta situação a todo o mundo em desenvolvimento, difícil é não reflectir também sobre a qualidade de vida desta recente “espécie urbana” que, alterando as suas prioridades, prefere encontrar um emprego na “grande cidade”, mesmo que isso implique viver em condições quase sub-humanas, a ter um abrigo condigno para habitar.
Teremos nós, os profissionais da construção, alguma oportunidade de intervir nesta situação capaz de originar problemas graves a vários níveis?

Fica o mote para futuras reflexões.

27/08/2008

Uma rápida passagem por terras de Espanha

Depois de umas curtas férias em Portugal estou de volta à cidade inglesa que me acolhe há já um ano. (como o tempo passa depressa...)
Fizemos a nossa primeira de muitas viagens "free from plane". Julgo que foram mais de 24 horas passadas em comboios para Portugal. Na volta apanhámos boleia de carro com amigos que viajavam para Paris e então depois lá nos sentámos num comboio mais uma vez para podermos entrar na Ilha.
Bem sei que o avião é de facto baratucho e bem mais rápido, mas dinheiro nenhum compra as horas de contemplação de uma bela viagem de comboio. Aconselho vivamente!!

A vantagem de voltarmos de carro até à capital francesa foi (entre muitas outras) a de podermos parar para visitar umas quantas coisas interessantes no caminho.
Deixo aqui no
"Roof" umas fotos de edifícios que utilizam a terra como material de construção que tivemos oportunidade de avistar em Espanha e França. Infelizmente alguns já se encontram bastante danificados.

1as 4 fotografias: pequena localidade espanhola perto de Segovia. Taipa, adobe e reboco de terra
5ª fotografia: Edifício em frente à Catedral de Chartres em França. (Não me pareceu totalmente explícito, mas julgo que se trata de uma mistura de terra e pedras de pequenas dimensões)

07/08/2008

E nas casas de banho...

Arquitecto - Paul Weiner

Super Adobe




Recordo com exactidão a primeira vez que ouvi falar da utilização desta técnica. Estava sentada no chão de um dos corredores da universidade aqui em Oxford quando um colega inglês disse-me "Sabias que andam a construir casas com sacos de terra?". Julgo que lhe mostrei um olhar de surpresa e nem o levei muito a sério. Sacos de terra?! Como seria possível?

Só uns meses depois percebi do que se tratava. Comprei um livro (XS: Big Ideas, Small Buildings) que contém entre assuntos referência a este tipo de técnica construtiva e desde então tenho pesquisado imenso sobre o assunto.

O que é isto dos sacos de terra então?

Segundo varias referências, esta técnica foi primeiro dada a conhecer ao mundo pelo arquitecto Iraniano Nader Khalili, que viu no "superadobe" a solução perfeita para providenciar uma casa para as vítimas de desastres naturais (tremores de terra, tempestades, inundações, etc.) e que dela foram privadas.

De acordo com o próprio, trata-se uma solução mais digna e (imagine-se) mais barata que a utilização de tendas para o mesmo efeito. Para alem disso, a aparência deixa de ser a de uma frágil estrutura de peças de metal e tecido (tenda) para passar a demonstrar segurança e a aproximar-se do que pode ser de facto uma casa.

A maravilha desta simples tecnologia, quanto a mim, prende-se com a facilidade e rapidez com que se pode erguer uma destas casas, sem grandes conhecimentos necessários para o fazer.

Com apenas terra (de preferência do próprio local), sacos e arame farpado (para reforço da estrutura) pode dar-se abrigo a uma quantidade enorme de pessoas em tempo recorde.

Como sempre, há lugar para a imaginação e criatividade. Há quem faça destes abrigos casas no pleno sentido da palavra, atribuindo-lhes um carácter muito mais permanente e dotando-os de uma beleza e escala inacreditáveis.

fonte: http://www.calearth.org
Para quem quiser saber mais, recomendo vivamente a visita ao site http://www.calearth.org

06/08/2008

V CONGRESO INTERNACIONAL DE ARQUITECTURA EN TIERRA

Descrição:
O Congresso tem como objectivo o encontro entre especialistas e investigadores que trabalham em arquitctura que utiliza aterrra comom material de construção, considerando as suas duas vertentes: a conservação do património em terra e a construção de novos edifícios com o mesmo material.

Novas datas:
20 e 21 de Setembro 2008
Cuenca de Campos, Valladolid

Organização:
GRUPO TIERRA, Universidad de Valladolid - Espanha

Mais informações/inscrições:
email: tierra@arq.uva.es

01/08/2008

Mediterra 2009 - 1ª Conferência Mediterrânica sobre arquitectura de terra



A esta eu vou!




Mediterra 2009: 1st Mediterranean Conference on Earth Architecture will take place 13-16 March 2009 in Cagliari, Sardinia, Italy.



Aims:

Mediterra 2009 aims principally to state the art of research, to study recent achievements in heritage conservation and architectural design, to increase university and professional training and to gather the network activities developed in the Mediterranean region.



Contribution:

This 1st Conference will include specialists from throughout the Mediterranean region. It will also have a transdisciplinary contribution that will bridge natural sciences, social sciences, and professional practices. A new global challenge requires a broad definition of a new discipline, with earth architecture at the crossroads of the sciences. The Mediterranean Region, with its history of many cultures and civilizations, now emerges as the core of new political and societal challenges being shared among Europe, North Africa and the Middle East.



Para mais informações consultar o programa disponível neste link.

E a Índia ficou para trás...

Não foi desta. Eu e a V. não fomos escolhidas para integrar a equipa de projecto da casa na Índia. Segundo nos informaram, chegaram mais de 50 candidaturas à caixa de correio electrónico do Article25 (antigos Architects4Aid). Acredito que a melhor foi seleccionada e é isso que interessa. Resta-me a alegria de saber que aquela mulher vai conhecer um futuro mais feliz com a ajuda do trabalho dos colegas.
Eu...Bom, eu continuarei a tentar.

31/07/2008

A Terra enquanto material de construção - QUE FUTURO?

Este não é um material recentemente descoberto ou fruto de um qualquer dispendioso e complexo programa de investigação nem pertence aos materiais engavetados como tecnologia de ponta como um sem número de outros, trata-se sim de um material que acompanha o homem desde há milhares de anos e cujo desenvolvimento caminhou lado a lado com a capacidade humana de criação do espaço arquitectónico.

A terra está desde tempos remotos associada à criação de abrigo, provavelmente devido à sua facilidade de aplicação e manuseamento e sobretudo à vasta abundância em praticamente todos os locais do globo. Depressa lhe foram reconhecidas qualidades construtivas suficientemente confiáveis para que com o passar dos anos pudesse constituir o principal material de construção em qualquer tipo de edifícios, desde habitação, fortificações militares, aquedutos, edifícios religiosos, entre outros.
Só a partir de tempos relativamente recentes e geralmente com o argumento de se poder construir em maior quantidade e mais rapidamente se começou a dar lugar a materiais que têm definido a estrutura da moldura arquitectónica que enquadra a contemporaneidade do ambiente edificado em Portugal. Sejam o tijolo, o cimento, o betão ou estruturas metálicas, todos eles e muitos outros têm providenciado ao material terra um apagamento quase forçado em nome do estatuto, tantas vezes enganador, da boa e eficaz arquitectura ocidental, conotando-o de uma forma negativa e normalmente associada a classes pobres que não possuem meios económicos para dar vida a uma típica e “ideal” casa de betão e tijolo que se encontra em plena proliferação por todo o território português.

O consumo excessivo de combustíveis fósseis e a situação muitas vezes apelidada de crítica verificada sobretudo nos países desenvolvidos assim como o alarmismo ligado ao futuro do consumo energético desenfreado dos países em desenvolvimento, desencadearam na sociedade actual uma preocupação sem precedentes no que diz respeito à manutenção saudável do planeta Terra e dos seus ocupantes. Cada vez mais popular é o uso de termos como “sustentabilidade” ou “eco” (normalmente aglutinado a outra palavra) que entraram no nosso quotidiano e se vão enraizando à medida que tomamos consciência dos seus conceitos. A qualidade de vida no sentido mais humano tem mantido uma importância considerável em áreas ligadas ao ambiente edificado, não fosse este responsável por mais de 40% do consumo da energia primária em Portugal.
Sobretudo por este motivo, e porque as mentalidades têm demonstrado capacidade de mudança e adaptação aos novos tempos e suas respectivas problemáticas, a terra tem sido de novo chamada para mesas de discussão onde provavelmente no passado não conhecia lugar.
Mesmo sendo um factor extremamente positivo para a sua divulgação, não é demais perceber que as vantagens da utilização da terra enquanto material de construção não estão somente relacionadas com a chamada “arquitectura sustentável”. Na verdade, as razões para a adopção do material são bastantes e parecem aumentar na mesma proporção em que nos embrenhamos no seu estudo e aplicação.

Passo a enunciar apenas algumas delas:

- Parece-me pertinente começar pela abundância global do material terra. Sem querer colar-me a uma frase feita, a verdade é esta: é acessível, é quase sempre possível extrai-lo do próprio local onde vai ser utilizado (eliminando assim o transporte dos habituais materiais pré-fabricados) e teoricamente pode ser eternamente reciclado, fechando assim o ciclo da vida e utilização deste material fantástico e natural.

- Para os que sonham construir (literalmente) a própria casa saiba-se por exemplo que a técnica para o manuseamento e aplicação do material é facilmente apreendida e que caso o desejem, os futuros proprietários poderão ser parte activa do processo de construção da sua futura casa.

- Vários autores dão-nos conta da existência de mais de 20 técnicas distintas de utilização da terra enquanto material de construção, o que é profundamente revelador da sua flexibilidade e adaptabilidade às mais diversas realidades, vontades ou exigências. Esta é uma das vantagens da terra que considero mais extraordinárias e a razão pela qual encontramos tantas variações até dentro da mesma técnica. A terra é transformada à medida das nossas mãos. É por exemplo comum encontrar paredes de “cob” com uma forte componente escultórica, taipa rigorosamente executada a roçar a acutilância dos ângulos rectos, paredes com técnicas mistas, casas constituídas (literalmente) por sacos de terra, etc., etc. Tudo depende do resultado final pretendido.

- O interior de uma casa de terra está de uma forma geral associado a conforto. A sua massa térmica permite esbater as variações de temperatura verificadas no exterior criando um agradável ambiente interior, o que normalmente implica menos gastos de energia relacionados com arrefecimento ou aquecimento.


Poderia continuar a enumerar vantagens, no entanto é também importante perceber que a utilização da terra pode ter também algumas limitações.

- O facto de não ser um material estandardizado pode representar um problema ao projectar um edifício por não ser possível confiar em valores fixos e testados. O solo pode ter diferentes características dependendo do local onde é extraído, sendo por vezes necessário melhorar a sua constituição através de aditivos para que a terra possa ser considerada apta para utilização como material de construção.

- É conveniente que ao projectar um edifício de terra se pense também na protecção das paredes exteriores contra a chuva, humidade, erosão, etc. Boas soluções são a utilização do beirado, embasamento e/ou aplicação de camadas protectoras no exterior das paredes. Tal facto pode eventualmente ser considerado uma limitação ao nível do desenho.
(Existem no entanto exemplos de casas totalmente expostas aos elementos climáticos, sem que por isso se degradem significativamente).

- A utilização de algumas destas técnicas obriga à adopção de uma espessura de paredes superior à normalmente utilizada com materiais de construção convencionais, o que significa que se retira área útil ao interior do espaço.




Parede de taipa - Eden Project, Reino Unido



Estrutura em cob - Eden Project, Reino Unido



Recuperando a tradição ou actualizando os costumes, com vantagens ou desvantagens, com maior ou menor grau de subjectividade, o importante é que o material terra volte a fazer parte integrante do contexto arquitectónico nacional e que se imponha com toda a confiança na contemporaneidade do ambiente construído.

(Dedicarei futuros posts à descrição de várias técnicas da construção em terra)


Referencias:

Rammed Earth - Design and Construction Guidelines; Peter Walker; BRE Bookshop, 2005

Earth construction handbook : the building material earth in modern architecture, Gernot Minke; Southampton : Boston : WIT Press ; Computational Mechanics Inc, 2000

Down to earth : mud architecture: an oldidea, a new future; Jean Dethier; London : Thames and Hudson, 1982

28/07/2008

O futuro do "roof"

Uma das razões pelas quais decide abrir este blog está ligada com a divulgação de alguns materiais de construção que acredito serem uma excelente alternativa a outros altamente “energívoros” e que preenchem a actualidade do ambiente construído.
Dada a minha predilecção pelo material TERRA faz sentido que comece com um texto sobre este o que espero ser uma prática ferramenta para quem procura alguma informação acerca da arquitectura concebida através do uso de materiais naturais.
Vou procurar também fazer destes posts um acompanhamento da pesquisa que desenvolvo no momento presente para a realização da minha tese de mestrado, que está ligada exactamente à arquitectura de terra.
Uma das funcionalidades fantásticas dos blogs é a possibilidade de ser uma plataforma de diálogo, como tal, seria bastante enriquecedor contar com o contributo de quem por cá passa, partilhe ou não o interesse por estas temáticas…

26/07/2008

Projecto na Índia

Há coisa de duas semanas eu e uma colega do atelier resolvemos enviar uma candidatura para o Article[25] com o objectivo de fazer parte da equipa de projecto que irá desenvolver em regime de voluntariado uma casa localizada na Índia e destinada à habitação de uma mulher que foi vítima de uma série de abusos sociais, maltratada, vendida... Segunda-feira saberemos se passámos à fase das entrevistas.
Acredito que arquitectura é também isto, DAR parte do nosso tempo e know-how para que os outros possam conhecer o significado de um sorriso.
Felizmente tenho descoberto muitas associações, sobretudo aqui no Reino Unido, que se empenham verdadeiramente em dar as mãos e ajudar os países em desenvolvimento das mais variadas formas. A construção de escolas, abrigos, casas, etc. e a intervenção positiva nas comunidades tem convencido muita gente a juntar-se a esta causa e a embarcar em missões que dizem marcar para sempre as suas vidas.

25/07/2008

The roof above my head

Volvidos praticamente três anos desde a minha última passagem pelas portas da universidade em Lisboa e agora já profundamente envolvida nas teias da profissão da arquitectura, não há um só dia em que não pense na essência da profissão que escolhi para a minha vida.
Plenamente consciente da complexidade dos gestos, que são agora parte integrante do meu quotidiano, passei a saber também, e julgo que sem surpresas, que a sina da mente sintonizada para esta coisa do ambiente construído me acompanha para além das 8 horas de trabalho dedicadas a criar e interpretar linhas e formas destinadas a conhecer um futuro material.Não me considero descontente ou desapontada, no entanto, desde cedo comecei a questionar algumas das acções que preenchem o meu dia-a-dia ou, se quisermos tornar a reflexão mais ampla, pode dizer-se que comecei a questionar o papel do arquitecto na sociedade e consequentemente, o meu.
Enquanto estudante vivi na sua plenitude toda a ideia da poética da profissão do arquitecto; o artista, o pensador, o filósofo... Nunca me passou pela mente que a robotização do mundo do trabalho se aplicasse também a ele. Não darei a esta atitude uma conotação negativa dizendo que se tratava de inocência de estudante, pois julgo que foi também essa postura que me levou a estudar apaixonadamente as temáticas, assim como a descobrir meu o caminho para o futuro.
Hoje, já fora do meu país natal, convicta de que a decisão de partir foi definitivamente a mais acertada, trabalho e estudo arduamente para vislumbrar constantemente o meu norte e manter viva a magia da poética forma de estar na arquitectura.
O que me move? Questões que teimam em não conhecer as respostas certas.Como pode a arquitectura representar parte da solução para muitos dos problemas da actualidade, não só relacionados com o "estado de saúde" do nosso planeta, mas também com as carências das populações espalhadas pelos países onde ter um tecto é um privilégio?
Como poderão os arquitectos responder a estes desafios?
Quando se deixará de olhar para a arquitectura como uma forma de exibicionismo barato e como ferramenta para servir os interesses de um grupo de pseudo-iluminados cujo trabalho muito pouco tem contribuído para a harmonia do ambiente construído e sua inserção na sociedade?
Alguém importante disse-me há uns dias que ao registarmos as ideias por escrito estamos a dar repouso à nossa mente, deixando assim espaço para que a reflexão continue o seu percurso e possa mais uma vez ser guardada e registada. É isso que pretendo fazer: arrumar ideias. Torná-las mais claras e trilhar o caminho do presente para o futuro.
Bem-vindos