30/05/2009

Recontruir Gaza com TERRA

São por vezes as estranhas circunstâncias da vida que nos obrigam a pensar “outside the box” e a ver para além do simples hábito do imediato.
Os cenários de conflito são geralmente causadores de grande dor e sofrimento, a tragédia de Gaza não foge, infelizmente, a esta regra.
Surpreendentemente são também as maiores tragédias que mostram o sinal da força e vontade humana.
Li uma reportagem interessante neste website, que me deu a conhecer a reacção de alguns dos habitantes de Gaza à proibição da entrada de materiais de construção, como os que as pessoas assumem geralmente como garantidos sempre que pensam em construir uma casa.
Traduzida em números, a destruição apresenta-se aterradora: 5000 casas e 20000 edifícios foram destruídos em 3 semanas. Uma quantidade com certeza assustadora para quem pensa em voltar a erguer das cinzas a alma da cidade. O artigo refere a doação de fundos (4, 5 biliões de dólares) para este fim, sublinhando no entanto que Israel não permite a entrada de materiais de construção, como por exemplo o cimento, para que a reconstrução possa ser uma realidade.
Qual a solução para que as famílias desalojadas possam voltar a ter um tecto, para garantir uma escola para as crianças ou providenciar hospitais e locais de culto para os habitantes?
A resposta foi encontrada no material de construção terra e, a julgar pelo artigo, com bons resultados.
Recomendo vivamente a leitura integral desta história de sobrevivência escrita por Nidal al-Mughrabi, da qual deixo aqui um pequeno excerto.

“...
Compared to a cement home, the mud homes Shaar has designed and taught others to build are nonetheless the most practical and immediate solution. Nidal Eid (35) has seven children and has been renting a home in the Rafah region since his house was bulldozed by the Israeli army four years ago. Larger than Shaar's and still in its nascent form, Eid's home will take another two weeks to complete, he estimates, and will cost roughly 4,000 dollars. "It's going to be fantastic," Eid said, adding mud mortar and new bricks to the waist-high wall he has already completed. "We make about 1,000 bricks every three days." The work, he said, was shared between six people. "I couldn't wait any longer for the siege to end. I have a family and we need a house, so I'm building this. Everything is difficult in Gaza, but we have to find ways to get by." A tour through Jihad el-Shaar's home shows all sorts of creative touches to the simple structure. Inlaid shelves are custom-sized to hold gas lanterns, dishes, ornamental vases, books...an earth-brick bed eliminates the need for an additional bed frame. The 35cm thick walls keep the house surprisingly cool, and the wooden windows propped open by poles allow the breeze to pass through.
...”

Hassan Fathy - Natural Energy and Vernacular Architecture

Tenho aprendido muito com os Mestres nos últimos tempos. Pessoas como Hassan Fathy trilharam caminhos para que as gerações futuras continuassem a lutar pelas mesmas causas nobres a que dedicaram as suas vidas. É talvez graças ao seu trabalho árduo que a mentalidade global tem vindo a conhecer mudanças importantes no que diz respeito, por exemplo, à Arquitectura de Terra e benefícios para o mundo da sua utilização.
Para quem deseja dar uma espreitadela a um dos seus livros (Natural Energy and Vernacular Architecture) pode fazê-lo através DESTE LINK, que contém o texto integral da publicação. Basta clicar no capítulo respectivo para imediatamente ser direccionado para o seu conteúdo.
Bem sei que não é o mesmo que sentir a textura do papel das páginas de um livro que se pode carregar debaixo do braço, mas, e mesmo através de um ecrã de computador, é muito enriquecedor e interessante.

Já agora, recomendo uma visita ao website da United Nations University, que disponibiliza a publicação referida online.

27/05/2009

AFRICOAE Seeks Volunteer Project Manager/ Creative Fundraiser

Fonte: http://www.archiafrika.org/en/node/1030

Uma excelente oportunidade para quem deseja envolver-se na construção em terra num dos locais do mundo onde a sua herança histórica fala bem alto!

Fonte da informação e imagem: http://www.archiafrika.org/en/node/1030


"From 2010-2015, we will be developing a model artist village in Ghana and Uganda for replication in other parts of Africa. For the locals, it will mean a resolution to the age-old problem for artists, painters, sculptors, dancers, and others who require low-cost and expanse of space in which to work; and for persons in the arts from around the world, it will be a contact point for artist-in-residence for community-based arts projects. Some 50 and 500-1000 acres have been speculated in rural parts of Ghana, as are in Uganda, Cameroon and Botswana.
Project, thus, seeks an experienced project manager, or creative fundraiser to creatively source finance and coordinate the construction of an artist village for the low- and moderate-income artists in one of the African countries. The project is a design-andbuild Earth Architecture Challenge, in which creative thinkers and technical specialists in the visual arts, architecture and engineering from sub-Sahara Africa and other parts of the world will work together for a period of time to design-and-build dwellings out of earth and other materials from the environment, which will be attended by many visitors.The challenge is open to traditional and modern construction methods, and experimental approaches and sustainable solutions such as mud bricks, terracrete, laterized concrete, compressed earth, rammed earth, hydraform and other best practices out there that may work in this region of the world.
If interested in facilitating the project or wish to suggest a resource person, please e-mail to
africoae@gmail.com. "


Additional information on the project will be upon request.
PROJECT: DESIGN-AND-BUILD AN EARTH HOME CHALLENGEWEB SITE: http://www.focusonthearts.org, http://afropoets.tripod.com/eta

18/05/2009

Taipa em Norfolk, Reino Unido




Michael Thompson, autor e construtor deste edifício de taipa localizado em Norfolk, mostra-nos que a técnica da taipa pode passar fácil e rapidamente da teoria para a prática. Depois de ter ouvido falar pela primeira vez da taipa em Janeiro de 2008, o autor arregaçou as mangas e deitou mãos à obra para erguer o seu próprio edifício com paredes de terra. Abraçou esta tarefa monumental de corpo e alma durante cerca de 6 meses e agora, já só com detalhes mínimos para terminar, é possível observar que todo o trabalho valeu a pena!
Uma vez que se trata de um abrigo de jardim, questões como isolamento não constituíram um problema.
Deixei-lhe a sugestão e desafio de construir uma casa de taipa numa próxima vez. Veremos o que o futuro contará.

13/05/2009

Rammed Earth Workshop | Norfolk 9-10/05/2009





A sorte esteve do meu lado no fim-de-semana que passou. As nuvens escuras mantiveram-se afastadas de Norfolk enquanto eu e os restantes participantes do workshop erguiamos uma parede de taipa.
Tivemos como background uma construção de taipa totalmente desenhada e construída por Michael Thompson, que após a conclusão desta decidiu energicamente partilhar o seu conhecimento com quem estivesse interessado em seguir-lhe os passos.
Gostei imenso do curso, não só pelo seu carácter educativo, mas também porque o ambiente de grupo que se viveu foi muito interessante e agradável. Correu tudo bem e a nossa parede ficou quase, quase perfeita!!

Visitámos também rapidamente a casa de Kate Edwards, entusiasta da construção em cob. Infelizmente não se encontrava em casa, o que não impediu que dessemos uma vista de olhos pelas construções de cob presentes no seu enorme jardim, tal como este forno de pizzas.


Em breve o Michael vai ministrar um outro workshop, desta vez dedicado às coberturas ajardinadas. Tenho a certeza que vai ser bestial!!
Dedicarei um futuro post à descrição do seu shed.

11/05/2009

Utilização de massa térmica no contexto climático do Reino Unido

Iniciei o percurso da terra como uma espécie de purista. Uma parede de terra era uma parede de terra e qualquer elemento a ela acrescentada, como isolamento ou revestimento, não lhe serviria boa função. Assim pensava até há pouco tempo. Reconheço agora que o facto de ter vivido em território lusitano tantos anos me alimentou de alguma forma esta ideia. É verdade que o clima é propício à utilização da terra enquanto material de construção na sua forma “pura”, isto é, parede exposta ao exterior, no entanto, é também verdade que diferentes situações exigem diferentes soluções. Há que ultrapassar ideias pré-concebidas, especialmente quando pregamos aos sete ventos que a terra é suficientemente flexível para se adaptar a qualquer parte do mundo, independentemente do seu contexto climático, geográfico, social ou cultural. O último trabalho do MSc proporcionou-me a fantástica oportunidade de conceber e testar o comportamento das paredes externas de taipa num edifício localizado em Oxford, Reino Unido. Este país é provavelmente dos mais rígidos em termos de regulamentação aplicada ao sector construtivo, é também dos que mais tem investido na adaptação dos regulamentos à exigência da conservação energética no edificado. Estes factores, aliados a um clima onde os altos níveis de precipitação e as baixas temperaturas representam uma constante na maior parte do ano, foram decisivos na opção da inclusão de isolamento aplicado pelo exterior e revestimento de madeira.


Para a construção do brief deste exercício académico, tive como objectivos principais os seguintes:


a) Desenho solar passivo (sem recurso a sistemas auxiliares de arrefecimento ou aquecimento);

b)Ligeira inclinação da fachada principal com o objectivo de permitir a entrada de mais luz natural;

c) Fachada principal orientada a Sul, contemplando uma área considerável de vidro de forma a permitir o acesso de ganhos solares durante o Inverno. Um sistema de sombreamento móvel, controlado pelos ocupantes, garantirá o controlo da entrada dos ganhos solares no Verão;

d) Fachada Norte com vãos de dimensões reduzidas, banindo assim as excessivas perdas de calor;

e) Sistema de ventilação nocturna garante o controlo das temperaturas internas no Verão, evitando o sobreaquecimento;

f) Utilização de materiais naturais de baixa energia incorporada (sobretudo terra e madeira) de preferência de origem local, no sentido de evitar o transporte a partir de longas distâncias;

g) Utilização de cobertura ajardinada, não só como forma de contribuir para a estratégia geral de bom comportamento térmico da casa mas também para o desenvolvimento da biodiversidade da zona na qual o edifício se insere;

h) Inclusão de espaço de trabalho no piso superior, providenciando desta forma a escolha de trabalhar a partir de casa.

Estudo da luz natural no interior da casa

O processo de desenho foi acompanhado pela ferramenta de modelação térmica IES, o que veiodeterminar a alteração de muitas das escolhas de desenho iniciais por prejudicarem o desempenho térmico do edifício como um todo. Foi o caso dos vãos localizados a Norte, cujas dimensões foram alteradas por diversas vezes, para melhor se acomodarem ao objectivo pretendido. (As novas tecnologias têm trazido maravilhas ao processo do desenho passivo!!)

O gráfico apresentado em baixo demonstra a variação das temperaturas verificadas no interior e exterior do edifício nos dias 2, 3 e 4 de Janeiro de um ano típico do clima do Reino Unido.
Embora as condições internas da casa de taipa apresentem, aparentemente, um nível térmico desconfortável, será talvez importante notar os valores quase constantes das temperaturas (divisões internas mostradas em tons de verde), contrastando com as variações acentuadas verificadas no exterior (linha azul).
A maior diferença, em relação a uma construção típica de parede dupla com cavidade preenchida por isolamento (gráfico em baixo), reside, no entanto, na elevada capacidade térmica proporcionada pela massa das paredes de taipa. Funcionando como uma espécie de bateria, carrega durante o período diurno através da absorção dos ganhos solares e internos, libertando depois esta energia sobre a forma de calor para o interior da casa durante o fim da tarde/noite. As temperaturas internas sobem enquanto as condições exteriores se tornam mais frias e desconfortáveis. Na construção convencional, tal não se verifica, sendo que as temperaturas internas oscilam em paralelo com as externas.
Basicamente, é a diferença entre entrar em casa ao fim da tarde e encontrar 14˚C (casa de taipa) ou cerca de 10˚C (casa convencional), quando no exterior se vive o desconforto de temperaturas negativas (no exemplo apresentado).

Que conclusões se podem retirar deste tipo de estudos? Na minha opinião a resposta não podia ser mais simples. Encontramo-nos obviamente perante um material que não só tem toda a capacidade de ombrear com qualquer material actualmente existente na indústria da construção, mas apresenta também todas as características para desempenhar um papel importante na estratégia para a redução de consumo energético e emissões de CO2 oriundas do sector dos edifícios.

De que estamos à espera então?...

06/05/2009

Shed 2009

Os votos para o shed do ano de 2009 estão abertos!! Sem querer influenciar vivalma, o que vos mostro no link abaixo parece-me uma excelente escolha...

http://www.readersheds.co.uk/share.cfm?SHARESHED=2239

Construído em taipa, pertence a Michael Thompson, um verdadeiro activista na divulgação do material terra.

Por coincidência vou estar num workshop de taipa exactamente com este senhor, já no próximo fim-de-semana. Vou poder assim comprovar de perto que o meu voto foi merecido!