31/07/2008

A Terra enquanto material de construção - QUE FUTURO?

Este não é um material recentemente descoberto ou fruto de um qualquer dispendioso e complexo programa de investigação nem pertence aos materiais engavetados como tecnologia de ponta como um sem número de outros, trata-se sim de um material que acompanha o homem desde há milhares de anos e cujo desenvolvimento caminhou lado a lado com a capacidade humana de criação do espaço arquitectónico.

A terra está desde tempos remotos associada à criação de abrigo, provavelmente devido à sua facilidade de aplicação e manuseamento e sobretudo à vasta abundância em praticamente todos os locais do globo. Depressa lhe foram reconhecidas qualidades construtivas suficientemente confiáveis para que com o passar dos anos pudesse constituir o principal material de construção em qualquer tipo de edifícios, desde habitação, fortificações militares, aquedutos, edifícios religiosos, entre outros.
Só a partir de tempos relativamente recentes e geralmente com o argumento de se poder construir em maior quantidade e mais rapidamente se começou a dar lugar a materiais que têm definido a estrutura da moldura arquitectónica que enquadra a contemporaneidade do ambiente edificado em Portugal. Sejam o tijolo, o cimento, o betão ou estruturas metálicas, todos eles e muitos outros têm providenciado ao material terra um apagamento quase forçado em nome do estatuto, tantas vezes enganador, da boa e eficaz arquitectura ocidental, conotando-o de uma forma negativa e normalmente associada a classes pobres que não possuem meios económicos para dar vida a uma típica e “ideal” casa de betão e tijolo que se encontra em plena proliferação por todo o território português.

O consumo excessivo de combustíveis fósseis e a situação muitas vezes apelidada de crítica verificada sobretudo nos países desenvolvidos assim como o alarmismo ligado ao futuro do consumo energético desenfreado dos países em desenvolvimento, desencadearam na sociedade actual uma preocupação sem precedentes no que diz respeito à manutenção saudável do planeta Terra e dos seus ocupantes. Cada vez mais popular é o uso de termos como “sustentabilidade” ou “eco” (normalmente aglutinado a outra palavra) que entraram no nosso quotidiano e se vão enraizando à medida que tomamos consciência dos seus conceitos. A qualidade de vida no sentido mais humano tem mantido uma importância considerável em áreas ligadas ao ambiente edificado, não fosse este responsável por mais de 40% do consumo da energia primária em Portugal.
Sobretudo por este motivo, e porque as mentalidades têm demonstrado capacidade de mudança e adaptação aos novos tempos e suas respectivas problemáticas, a terra tem sido de novo chamada para mesas de discussão onde provavelmente no passado não conhecia lugar.
Mesmo sendo um factor extremamente positivo para a sua divulgação, não é demais perceber que as vantagens da utilização da terra enquanto material de construção não estão somente relacionadas com a chamada “arquitectura sustentável”. Na verdade, as razões para a adopção do material são bastantes e parecem aumentar na mesma proporção em que nos embrenhamos no seu estudo e aplicação.

Passo a enunciar apenas algumas delas:

- Parece-me pertinente começar pela abundância global do material terra. Sem querer colar-me a uma frase feita, a verdade é esta: é acessível, é quase sempre possível extrai-lo do próprio local onde vai ser utilizado (eliminando assim o transporte dos habituais materiais pré-fabricados) e teoricamente pode ser eternamente reciclado, fechando assim o ciclo da vida e utilização deste material fantástico e natural.

- Para os que sonham construir (literalmente) a própria casa saiba-se por exemplo que a técnica para o manuseamento e aplicação do material é facilmente apreendida e que caso o desejem, os futuros proprietários poderão ser parte activa do processo de construção da sua futura casa.

- Vários autores dão-nos conta da existência de mais de 20 técnicas distintas de utilização da terra enquanto material de construção, o que é profundamente revelador da sua flexibilidade e adaptabilidade às mais diversas realidades, vontades ou exigências. Esta é uma das vantagens da terra que considero mais extraordinárias e a razão pela qual encontramos tantas variações até dentro da mesma técnica. A terra é transformada à medida das nossas mãos. É por exemplo comum encontrar paredes de “cob” com uma forte componente escultórica, taipa rigorosamente executada a roçar a acutilância dos ângulos rectos, paredes com técnicas mistas, casas constituídas (literalmente) por sacos de terra, etc., etc. Tudo depende do resultado final pretendido.

- O interior de uma casa de terra está de uma forma geral associado a conforto. A sua massa térmica permite esbater as variações de temperatura verificadas no exterior criando um agradável ambiente interior, o que normalmente implica menos gastos de energia relacionados com arrefecimento ou aquecimento.


Poderia continuar a enumerar vantagens, no entanto é também importante perceber que a utilização da terra pode ter também algumas limitações.

- O facto de não ser um material estandardizado pode representar um problema ao projectar um edifício por não ser possível confiar em valores fixos e testados. O solo pode ter diferentes características dependendo do local onde é extraído, sendo por vezes necessário melhorar a sua constituição através de aditivos para que a terra possa ser considerada apta para utilização como material de construção.

- É conveniente que ao projectar um edifício de terra se pense também na protecção das paredes exteriores contra a chuva, humidade, erosão, etc. Boas soluções são a utilização do beirado, embasamento e/ou aplicação de camadas protectoras no exterior das paredes. Tal facto pode eventualmente ser considerado uma limitação ao nível do desenho.
(Existem no entanto exemplos de casas totalmente expostas aos elementos climáticos, sem que por isso se degradem significativamente).

- A utilização de algumas destas técnicas obriga à adopção de uma espessura de paredes superior à normalmente utilizada com materiais de construção convencionais, o que significa que se retira área útil ao interior do espaço.




Parede de taipa - Eden Project, Reino Unido



Estrutura em cob - Eden Project, Reino Unido



Recuperando a tradição ou actualizando os costumes, com vantagens ou desvantagens, com maior ou menor grau de subjectividade, o importante é que o material terra volte a fazer parte integrante do contexto arquitectónico nacional e que se imponha com toda a confiança na contemporaneidade do ambiente construído.

(Dedicarei futuros posts à descrição de várias técnicas da construção em terra)


Referencias:

Rammed Earth - Design and Construction Guidelines; Peter Walker; BRE Bookshop, 2005

Earth construction handbook : the building material earth in modern architecture, Gernot Minke; Southampton : Boston : WIT Press ; Computational Mechanics Inc, 2000

Down to earth : mud architecture: an oldidea, a new future; Jean Dethier; London : Thames and Hudson, 1982

28/07/2008

O futuro do "roof"

Uma das razões pelas quais decide abrir este blog está ligada com a divulgação de alguns materiais de construção que acredito serem uma excelente alternativa a outros altamente “energívoros” e que preenchem a actualidade do ambiente construído.
Dada a minha predilecção pelo material TERRA faz sentido que comece com um texto sobre este o que espero ser uma prática ferramenta para quem procura alguma informação acerca da arquitectura concebida através do uso de materiais naturais.
Vou procurar também fazer destes posts um acompanhamento da pesquisa que desenvolvo no momento presente para a realização da minha tese de mestrado, que está ligada exactamente à arquitectura de terra.
Uma das funcionalidades fantásticas dos blogs é a possibilidade de ser uma plataforma de diálogo, como tal, seria bastante enriquecedor contar com o contributo de quem por cá passa, partilhe ou não o interesse por estas temáticas…

26/07/2008

Projecto na Índia

Há coisa de duas semanas eu e uma colega do atelier resolvemos enviar uma candidatura para o Article[25] com o objectivo de fazer parte da equipa de projecto que irá desenvolver em regime de voluntariado uma casa localizada na Índia e destinada à habitação de uma mulher que foi vítima de uma série de abusos sociais, maltratada, vendida... Segunda-feira saberemos se passámos à fase das entrevistas.
Acredito que arquitectura é também isto, DAR parte do nosso tempo e know-how para que os outros possam conhecer o significado de um sorriso.
Felizmente tenho descoberto muitas associações, sobretudo aqui no Reino Unido, que se empenham verdadeiramente em dar as mãos e ajudar os países em desenvolvimento das mais variadas formas. A construção de escolas, abrigos, casas, etc. e a intervenção positiva nas comunidades tem convencido muita gente a juntar-se a esta causa e a embarcar em missões que dizem marcar para sempre as suas vidas.

25/07/2008

The roof above my head

Volvidos praticamente três anos desde a minha última passagem pelas portas da universidade em Lisboa e agora já profundamente envolvida nas teias da profissão da arquitectura, não há um só dia em que não pense na essência da profissão que escolhi para a minha vida.
Plenamente consciente da complexidade dos gestos, que são agora parte integrante do meu quotidiano, passei a saber também, e julgo que sem surpresas, que a sina da mente sintonizada para esta coisa do ambiente construído me acompanha para além das 8 horas de trabalho dedicadas a criar e interpretar linhas e formas destinadas a conhecer um futuro material.Não me considero descontente ou desapontada, no entanto, desde cedo comecei a questionar algumas das acções que preenchem o meu dia-a-dia ou, se quisermos tornar a reflexão mais ampla, pode dizer-se que comecei a questionar o papel do arquitecto na sociedade e consequentemente, o meu.
Enquanto estudante vivi na sua plenitude toda a ideia da poética da profissão do arquitecto; o artista, o pensador, o filósofo... Nunca me passou pela mente que a robotização do mundo do trabalho se aplicasse também a ele. Não darei a esta atitude uma conotação negativa dizendo que se tratava de inocência de estudante, pois julgo que foi também essa postura que me levou a estudar apaixonadamente as temáticas, assim como a descobrir meu o caminho para o futuro.
Hoje, já fora do meu país natal, convicta de que a decisão de partir foi definitivamente a mais acertada, trabalho e estudo arduamente para vislumbrar constantemente o meu norte e manter viva a magia da poética forma de estar na arquitectura.
O que me move? Questões que teimam em não conhecer as respostas certas.Como pode a arquitectura representar parte da solução para muitos dos problemas da actualidade, não só relacionados com o "estado de saúde" do nosso planeta, mas também com as carências das populações espalhadas pelos países onde ter um tecto é um privilégio?
Como poderão os arquitectos responder a estes desafios?
Quando se deixará de olhar para a arquitectura como uma forma de exibicionismo barato e como ferramenta para servir os interesses de um grupo de pseudo-iluminados cujo trabalho muito pouco tem contribuído para a harmonia do ambiente construído e sua inserção na sociedade?
Alguém importante disse-me há uns dias que ao registarmos as ideias por escrito estamos a dar repouso à nossa mente, deixando assim espaço para que a reflexão continue o seu percurso e possa mais uma vez ser guardada e registada. É isso que pretendo fazer: arrumar ideias. Torná-las mais claras e trilhar o caminho do presente para o futuro.
Bem-vindos